Você nunca vai me deixar

"Esta é a médica de plantão ontem à noite", disse o diretor do hospital. "Doutora Debora Griffith."

Willie Calderon, assistente de Isaac, entrou na sala e examinou o crachá no jaleco de Debora. "Venha comigo."

Era compreensível que Debora ficasse confusa.

"Para onde estamos indo?"

Mas o diretor do hospital não tinha a menor intenção de responder. Puxando-a com certa força, ele ordenou: "Vamos. Não deixe o senhor Johnston esperando."

Pouco depois, ela já estava no escritório do diretor.

Isaac estava sentado no sofá, seu corpo magro e musculoso reclinado numa pose descontraída, as longas pernas cruzadas à frente. Só um olhar muito atento notaria que seus lábios estavam mais pálidos que o normal.

Felizmente, o cheiro forte de desinfetante que impregnava as paredes do hospital mascarava o odor de sangue em sua pele.

Vestia um terno totalmente negro, o que também ajudava a esconder as manchas vermelhas que, de outro modo, alarmariam todos ao redor. Sua expressão era dura, deixando claro que aquele homem havia passado pelo inferno e voltado, e não era alguém com quem se brincasse.

Willie se aproximou do sofá e inclinou-se para sussurrar no ouvido de Isaac: "Os vídeos de vigilância de ontem à noite foram adulterados de propósito, provavelmente pelos seus agressores. Limparam os rastros e eliminaram qualquer possível evidência. Esta é a doutora Debora Griffith, a residente de plantão. O próprio diretor confirmou. Eu também verifiquei os registros. É ela mesmo."

Só então Isaac ergueu os olhos.

Debora prendeu a respiração ao reconhecer o homem à sua frente: era o dono da Corporação Pamo.

"Foi você quem me ajudou ontem à noite?" Isaac perguntou, olhando-a da cabeça aos pés.

Imediatamente, Debora baixou a cabeça, sem coragem de encarar aquele olhar intimidante.

"Sim... fui eu." Não entendia exatamente do que se tratava, mas sabia que cair nas boas graças de Isaac Johnston só lhe traria vantagens. Benefícios certamente surgiriam.

Por coincidência, o Hospital Central Militar estava prestes a selecionar candidatos para estágio.

E, embora fosse chamado de estágio, todo mundo no meio sabia que os estagiários acabariam efetivados e fariam carreira na instituição.

No mínimo, o Hospital Central Militar tinha acesso a recursos muito superiores aos deste hospital onde estavam.

Debora planejava se aproximar de Isaac na esperança de usar seus contatos para entrar no hospital melhor.

"Posso compensá-la da maneira que quiser, até com casamento." A voz fria de Isaac cortou seus pensamentos subitamente. Seu rosto permanecia impassível, mas a lembrança do encontro da noite anterior suavizou a linha rígida de sua boca.

"Bem... eu..." Isso ia muito além do que Debora imaginara. Ela lutou para encontrar uma resposta.

"Procure-me quando se decidir." Isaac levantou-se e fez um gesto para Willie lhe dar seu contato.

O diretor do hospital apressou-se a oferecer-se para acompanhar Isaac até a saída.

"Não é preciso", recusou Isaac, sua postura tornando-se gelada novamente. De repente, parou, como se tivesse lembrado de algo. Virando-se para o diretor, disse: "Cuide bem dela."

"Claro", garantiu o diretor com um sorriso treinado.

Assim que se certificou de que estavam fora do alcance da audição, Willie chegou perto de Isaac. "Senhor", falou em tom baixo mas urgente. "O senhor já é casado. Não acho que o casamento seja uma opção viável para a senhorita Griffith. Seria melhor retirar a oferta."

Os lábios de Isaac contraíram-se ao ouvir falar do próprio casamento, e seu rosto escureceu ainda mais ao pensar na mulher com quem fora forçado a se unir. "Você quer morrer?", ameaçou o assistente.

Willie sabia que falara o que não devia e estremeceu imediatamente. Naquele momento, não sabia quem deixava seu chefe mais irritado: a nova esposa ou os responsáveis pelo ataque da noite anterior.

Enquanto isso, Camila retornava à casa que deveria dividir com o marido.

A governanta de meia-idade, Glenda Rivera, a recebeu no hall, o rosto marcado pela preocupação. "Por que a senhora saiu ontem à noite?"

"Tive que cobrir o plantão de uma colega", respondeu Camila.

Seus olhos estavam vermelhos e ardiam de cansaço.

Vendo aquilo, Glenda julgou melhor não insistir.

Camila subiu as escadas e entrou na banheira. Involuntariamente, seus pensamentos voltaram à noite anterior, e sentiu as bochechas esquentarem. Respirou fundo e mergulhou na água, como para fugir daquela lembrança perturbadora.

Seus sentimentos sobre o assunto eram complicados, e ela não sabia por onde começar a entendê-los.

Nem sequer fazia ideia de que tipo de homem era aquele.

E, acima de tudo, ela era casada.

Uma pontada de culpa atravessou-a ao pensar nisso. Independente das circunstâncias que os levaram àquela situação, o fato era que ela e Isaac eram marido e mulher.

Ao sair do banho, Camila vestiu-se e preparou-se para sair outra vez.

Como era de se esperar, Glenda ficou alarmada assim que a viu descer. "Já vai sair de novo? Por que não toma o café da manhã primeiro?"

Camila conferiu a hora. "Não posso, vou me atrasar para o trabalho."

Glenda sabia que Camila era médica, portanto era normal que a jovem passasse horas excessivas no trabalho. Ela entregou um copo de leite a Camila e disse: "Beba isto, pelo menos. Cuidado, está quente."

"Obrigada", disse Camila suavemente, comovida com a preocupação da governanta.

"De nada", respondeu Glenda com um sorriso gentil. O casamento podia ter sido forçado, mas ela tinha bom senso suficiente para não menosprezar Camila. Mesmo sem o título de esposa de Isaac Johnston, Camila era uma médica formada, e isso por si só a tornava mais do que digna de respeito.

Depois de beber o leite, Camila devolveu o copo a Glenda e saiu.

No entanto, não foi direto para a sala de descanso. Saíra cedo de casa porque precisava passar pelo Departamento de Internação.

Sua mãe estava na Unidade de Terapia Intensiva.

Camila entrou em silêncio no quarto e verificou a condição da mãe. Ela continuava em estado grave.

O coração de Camila apertou-se.

Sua mãe sofria de insuficiência cardíaca e encontrava-se em condição crítica. A única maneira de mantê-la viva era um transplante de coração, o que, naturalmente, custaria uma fortuna.

A principal razão pela qual Camila aceitara o casamento fora a ameaça do pai de reter o dinheiro necessário para a cirurgia.

Agora que se casara como ele exigira, só faltava encontrar um doador de coração compatível.

Camila lançou um olhar amargo para a mãe. "Mãe, vou melhorar a senhora. Eu prometo."

A mãe era a pessoa mais próxima, sua principal apoiadora e confidente.

De repente, seu celular tocou.

Camila tirou-o do bolso e atendeu.

"Mila", ecoou uma voz masculina do outro lado da linha. "Preciso que me faça um favor."

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