Você nunca vai me deixar

O homem do outro lado da linha era Forrest Walters. Eles tinham feito faculdade de medicina juntos, embora ele fosse dois anos mais velho. Ele acabara de ir para o exterior para continuar os estudos e agora era um especialista renomado na área.

Forrest sempre cuidara bem de Camila, então eles eram bastante próximos.

"Que tipo de favor?" Camila perguntou direto.

"Tenho um paciente precisando de tratamento, mas surgiu uma urgência e não vou conseguir me livrar disso tão cedo. Pode cuidar do paciente para mim?"

Camila deu uma olhada no relógio. Ela não estava de plantão naquele dia e, além de duas cirurgias marcadas para a tarde, estava praticamente livre. "Tudo bem. Para onde preciso ir?"

"Vou te mandar o endereço. Quando chegar lá, é só dizer aos seguranças que veio para o senhor Calderon. Eles resolvem o resto."

"Certo."

"Mais uma coisa", acrescentou Forrest, o tom ficando sério. "Não comenta isso com ninguém e não faz perguntas desnecessárias. Só precisa tratar o paciente."

"Entendi. Claro."

Desligaram. Camila chamou um táxi para levá-la ao endereço.

O local ficava num bairro nobre, repleto de casas com sistemas de segurança de alto nível.

Como esperado, um segurança parrudo a barrou na entrada. Segundo as instruções, Camila disse aos seguranças que estava lá para o senhor Calderon. Após uma ligação para confirmar, ele a deixou entrar no condomínio.

Camila encontrou a casa fácil. Subiu os degraus e tocou a campainha.

Não precisou esperar muito. A porta se abriu alguns segundos depois. Pelo visto, a situação era mesmo urgente.

Willie franziu a testa. Esperavam por Forrest, mas em vez dele, uma mulher estava na porta. "Licença, a senhora é..."

Pelas orientações de Forrest, Camila já presumira que o paciente prezava pela privacidade. Para não se meter em problemas, achou melhor usar uma máscara. Só por garantia.

"O doutor Walters me pediu para vir aqui."

Willie lançou um olhar rápido para o kit médico que ela carregava. "Sabe o que fazer?"

"Sim, o doutor Walters me passou as instruções. Não vou contar para ninguém."

Willie sabia que Forrest não passaria a tarefa a alguém não confiável ou incompetente. Por isso, assentiu e deixou Camila entrar.

Conduziu-a por uma sala de estar enorme, subiu as escadas e entrou num quarto.

Estava escuro lá dentro. "Como vou fazer o tratamento sem luz?"

Quando Isaac ouviu que era uma mulher, pegou rápido o paletó e cobriu o rosto com ele. "Acende a luz", ordenou por cima do tecido.

Willie apertou o interruptor. A luz forte inundou o quarto.

A primeira coisa que passou pela cabeça de Camila foi que a voz do paciente parecia familiar, mas preferiu não pensar nisso. Observou então a figura deitada na cama. A camisa social branca dele estava manchada de sangue já seco.

Camila não quis perder tempo com outros detalhes. Focou só nos ferimentos.

O homem claramente não queria que ela soubesse sua identidade. Era melhor obedecer e se portar direito.

Colocou o kit na mesa de cabeceira e pegou os instrumentos cirúrgicos.

Com uma tesoura, Camila cortou a camisa do paciente, expondo os ferimentos. Estavam cobertos por uma fina camada de gaze. Retirou a gaze e finalmente viu dois ferimentos abertos no lado direito do torso do homem.

Imediatamente, começou a trabalhar, limpando os ferimentos com mãos habilidosas.

Permaneceu calma o tempo todo, com movimentos rápidos e eficientes.

"Tem alergia a anestesia?", perguntou depois de um tempo.

Felizmente, os ferimentos não eram profundos, apenas cortes na maior parte da pele, mas ainda precisavam de pontos.

O procedimento exigiria anestesia local.

Camila falava com calma, quase num tom suave, um contraste gritante com a voz frenética da noite anterior.

Por isso, mesmo tendo trocado algumas palavras, Isaac não a reconheceu.

"Não", disse com a voz fria de sempre, por mais que internamente elogiasse a habilidade dela.

Camila preparou os anestésicos e injetou a substância perto dos ferimentos dele.

Precisaram esperar alguns minutos para o efeito fazer-se sentir. Então, ela começou a costurar.

Cerca de uma hora depois, terminou.

No geral, o tratamento foi rápido e bem-sucedido.

Camila olhou para as mãos ensanguentadas e disse: "Preciso usar o banheiro."

"Pode usar o de baixo", respondeu Willie.

Sem perder tempo, Camila saiu do quarto.

Quando teve certeza de que ela estava no primeiro andar, Willie fechou a porta e se aproximou de Isaac.

Soube que os bandidos que te atacaram ontem foram enviados pela sua tia Audrey. Ela provavelmente está desesperada para se livrar de você, principalmente depois que você tirou os espiões dela da empresa.

Isaac se sentou com um grunhido. Arrastou-se até a beirada da cama e colocou os pés no chão. Estava com uma cara horrível, mas os olhos dele brilhavam com um brilho ameaçador.

Então, voltou seu olhar penetrante para o assistente. "Aquela mulher com quem fui forçado a me casar tem alguma ligação com a Audrey?"

Willie baixou a voz para responder: "Na verdade, a Audrey entrou em contato com seu sogro, Marvin Haynes. Ele estava tão determinado a casar a filha com alguém da família Johnston, mas nunca pareceu ter considerado seu primo, Travis, como um candidato viável. A Audrey deve ter feito um acordo com ele."

"Ela não para de me surpreender. Seria falta de educação se eu não retribuísse o favor." Isaac só tinha ficado no exterior por um curto período, e ela já tinha feito muita bagunça na sua ausência.

"Ouvi dizer que o Travis tem um estabelecimento meio duvidoso na Rua Cavern, chamado "Charm"", disse Isaac.

Willie entendeu na hora o que o chefe queria. "É, eles não têm vez na empresa. Aquele clube é a única fonte de renda deles. Se for fechado... bom, vão ficar numa saia justa."

"Faça acontecer", disse Isaac, a voz ficando mais baixa.

Willie encontrou Camila quando descia as escadas.

Imaginou que o Forrest já devia tê-la avisado, mas não custava nada dar mais um lembrete. "Se contar isso a alguém, vai ter uma morte horrível."

Se a notícia dos ferimentos de Isaac chegasse à Audrey ou ao filho dela, Travis Johnston, eles certamente aproveitariam para causar mais problemas.

Camila assentiu. "Não vou contar para ninguém. Vou pegar meu kit e já vou embora."

Quando voltou ao quarto, encontrou o homem parado perto da janela, do outro lado da porta. Estava de costas para ela. Ela teve uma visão perfeita dos ombros largos e das costas musculosas, que se afunilavam numa cintura estreita e numa bunda que com certeza era durinha. O corpo era bem-proporcionado, quase divino.

"Não vai embora?", perguntou o homem com uma voz zombeteira. Não se virou, mas de alguma forma sabia que ela estava encarando. Talvez tivesse sentido o olhar quente dela.

Camila baixou a cabeça, envergonhada. Por mais que odiasse admitir, a visão dele a tinha deixado atordoada.

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