A dor rasgava meu corpo, uma agonia familiar que me lembrava das duas vezes anteriores. O quarto do hospital era branco, frio e impessoal, um cenário cruel para a perda que eu estava sendo forçada a reviver. Pela janela, via as luzes da cidade brilhando, indiferentes ao meu sofrimento. Cada contração era um lembrete brutal do que eu já tinha passado, da dor de um parto de alto risco seguido pelo silêncio devastador de um berço vazio.
Os médicos e enfermeiras entravam e saíam, seus rostos uma mistura de pena profissional e pressa. Eles falavam em termos técnicos sobre minha condição, sobre os riscos, sobre a necessidade de monitoramento constante. Eu apenas assentia, exausta demais para formular perguntas, para lutar.
Miguel, meu marido, estava ao meu lado, segurando minha mão. Seus olhos, que eu um dia considerei o refúgio mais seguro do mundo, estavam cheios de uma tristeza profunda e convincente.
"Eu estou aqui, meu amor. Vai ficar tudo bem, você vai ver."
Sua voz era suave, um bálsamo que, por um momento, quase me fez acreditar em suas palavras. Ele enxugava o suor da minha testa com um lenço, seus gestos eram de um marido devotado e desesperado. Ele falava sobre nosso futuro, sobre como superaríamos mais essa tragédia juntos, mais fortes do que nunca.
"Nós vamos tentar de novo, Sofia. Teremos nossa família."
A ironia daquelas palavras me atingiria mais tarde com a força de um maremoto. Naquele momento, no entanto, eu me agarrei a elas como uma pessoa se afogando se agarra a um pedaço de madeira. Eu o amava. Eu acreditava nele. Ele era Miguel, o renomado arquiteto, carismático e brilhante, o homem que me prometeu um conto de fadas. E eu, Sofia, uma designer de joias que via beleza em tudo, era ingênua o suficiente para acreditar que nosso amor poderia conquistar qualquer obstáculo, até mesmo a crueldade do destino que nos roubava os filhos no momento do nascimento.
Algumas semanas depois, já em casa e tentando me recuperar física e emocionalmente, a notícia veio como um choque. O médico, durante uma consulta de rotina, confirmou o que eu temia.
"Parabéns, Sofia. Você está grávida de novo."
Meu coração gelou. Outra vez? Passar por todo aquele inferno de novo? O medo me paralisou. Olhei para Miguel, esperando ver o mesmo pavor em seu rosto. Mas, para minha surpresa, um sorriso largo se abriu em seus lábios. Ele me abraçou com força, uma alegria quase febril em sua expressão.
"Isso é um milagre! Uma bênção! Eu sabia, meu amor! Desta vez vai dar tudo certo!"
Sua reação me pareceu estranha, excessiva. Mas eu afastei a dúvida. Era o desespero dele, pensei. Era a esperança se recusando a morrer. Eu me forcei a sorrir, a compartilhar de seu otimismo, mesmo que por dentro eu estivesse tremendo.
Naquela noite, eu não conseguia dormir. A casa estava silenciosa, mas minha mente era um turbilhão de medos. Levantei-me para beber um copo de água e, ao passar pelo escritório de Miguel, ouvi vozes. A porta estava entreaberta. Era ele, falando ao telefone com sua mãe. A curiosidade me fez parar.
"Sim, mãe, ela está grávida de novo. O plano está funcionando perfeitamente."
Meu corpo inteiro se imobilizou. Plano? Que plano?
"Não se preocupe, desta vez tomaremos ainda mais cuidado. Pedro está monitorando tudo. Assim que o bebê nascer, ele será entregue diretamente a Clara. Ninguém vai desconfiar de nada."
Clara. O nome ecoou em minha cabeça como um trovão. Clara, sua amiga de infância, sua "amada", como a família dele sempre se referia a ela. A mulher com quem ele mantinha uma amizade que sempre me incomodou, mas que ele jurava ser puramente platônica.
"A Sofia? Ela vai acreditar na mesma história de sempre. Que o bebê nasceu fraco e não resistiu. Ela é fraca, mãe. Ingênua. Ela acredita em tudo que eu digo."
A voz de Miguel era fria, calculista. Não havia traço do marido amoroso que me consolava há poucas horas. Era a voz de um estranho, de um monstro.
"Clara precisa desse filho para consolidar sua posição, e eu vou dar isso a ela. Sofia é apenas o meio para o fim. Uma incubadora perfeita."
Incubadora.
A palavra me atingiu com violência física. Eu me apoiei na parede para não cair, o ar faltando em meus pulmões. O copo de água escorregou da minha mão e se estilhaçou no chão, mas o barulho foi abafado pelo som do meu mundo se desintegrando.
Meus filhos.
Meus bebês.
Eles não estavam mortos.
Eles foram roubados.
Roubados por ele. Pelo homem que eu amava mais que a própria vida. A dor da traição foi mil vezes pior que a dor de qualquer parto. Era uma dor na alma, uma ferida que eu sabia que nunca cicatrizaria. O amor que eu sentia por Miguel se transformou em cinzas, e no lugar dele, nasceu uma fúria gelada. A mulher ingênua e apaixonada morreu naquele corredor escuro. Em seu lugar, uma outra Sofia começava a despertar.





