No dia seguinte, a realidade doentia da minha situação começou a se assentar. Eu me sentia presa em um pesadelo do qual não conseguia acordar. Miguel continuava com sua farsa, me tratando com um carinho que agora me causava náuseas. Cada toque, cada palavra de amor, era um veneno. Eu precisava de ajuda, de alguém em quem pudesse confiar. E só havia uma pessoa: Dr. Pedro.
Pedro era meu amigo antes de ser meu médico. Nos conhecemos na faculdade e sempre tivemos uma ligação forte. Foi ele quem me apresentou a Miguel. Agora, a lembrança disso me trazia um gosto amargo à boca. Marquei uma consulta com ele, sob o pretexto de um check-up de rotina.
Em seu consultório, a atmosfera era tensa. Pedro parecia incapaz de me olhar nos olhos. Seu nervosismo era palpável.
"Sofia, eu... eu acho que você deveria reconsiderar essa gravidez", ele disse, com a voz baixa. "Seu corpo passou por muito estresse. Mais um parto de alto risco... pode ser perigoso para você."
Suas palavras eram de preocupação, mas eu senti algo mais nelas. Culpa. Ele sabia. Ele era cúmplice.
"Perigoso como, Pedro? Você acha que eu posso morrer?", perguntei, minha voz fria e direta.
Ele desviou o olhar. "É uma possibilidade. Eu não posso, como seu médico e seu amigo, ignorar os riscos."
"Então você está me aconselhando a interromper a gravidez?", insisti, observando cada reação sua.
"Estou aconselhando você a pensar na sua saúde em primeiro lugar. Talvez... talvez a maternidade não seja para você."
Aquelas palavras, ditas por um amigo, doeram profundamente. Ele estava tentando me dissuadir, me afastar do meu próprio filho. A raiva começou a borbulhar dentro de mim, mas eu a contive. Eu precisava jogar o jogo deles.
Mais tarde, naquele mesmo dia, o destino me deu mais uma peça do quebra-cabeça. Eu estava no quarto, fingindo dormir, quando ouvi Miguel entrar em casa. Ele não veio me ver. Foi direto para o escritório e fez uma ligação. Eu me arrastei para fora da cama, meu corpo dolorido, e colei meu ouvido na porta, como na noite anterior. Era Pedro do outro lado da linha.
"Ela suspeita de alguma coisa?", a voz de Miguel era dura, impaciente.
"Não, acho que não", respondeu Pedro, hesitante. "Mas eu me sinto péssimo com isso, Miguel. Sofia não merece isso. O que estamos fazendo é monstruoso."
"Poupe-me do seu sermão moral, Pedro. Você está nisso tanto quanto eu. Lembre-se do favor que eu te fiz, daquela sua dívida de jogo que eu paguei. Você me deve. Agora, faça o que eu mandei. Dobre a dose dos 'suplementos' dela. Precisamos mantê-la calma e controlada. Não podemos ter nenhuma surpresa."
"Dobrar a dose? Miguel, isso pode afetar o feto! E pode prejudicar a saúde dela a longo prazo!"
"A saúde dela não é a prioridade! A prioridade é o bebê. O filho de Clara. Sofia é apenas a incubadora, lembra? Ela precisa cumprir seu papel, e depois... depois ela não importa mais."
Eu me encolhi atrás da porta, o corpo tremendo de horror e raiva. "Incubadora". Ele repetiu a palavra. Não era um deslize. Era como ele realmente me via. Eu não era sua esposa, não era a mãe de seus filhos. Eu era um objeto, uma ferramenta para seus fins doentios.
Ele continuou, sua voz ainda mais fria. "Quando chegar a hora, você fará a cesárea. Assim que o bebê sair, a equipe de Clara estará esperando. O resto você já sabe. Preparamos o atestado de óbito falso, como das outras vezes. Para Sofia, será só mais uma tragédia. Ela é boa em sofrer em silêncio."
Eu tive que morder meu próprio punho para não gritar. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, silenciosas e quentes. A traição era completa, meticulosamente planejada. Pedro, meu amigo, estava me drogando sob as ordens do meu marido para que eu pudesse gerar um filho para outra mulher.
Quando a ligação terminou, ouvi os passos de Miguel se aproximando. Corri de volta para a cama e fechei os olhos, forçando minha respiração a se acalmar. Ele abriu a porta do quarto devagar. Senti seu peso na beirada da cama. Sua mão tocou meu cabelo.
"Minha pobre e guerreira Sofia", ele sussurrou, a voz carregada de uma falsa compaixão que me revirou o estômago. "Você é tão forte. Eu admiro tanto isso em você."
Ele me beijou na testa. O toque de seus lábios em minha pele parecia queimar. Eu mantive meus olhos fechados, meu corpo rígido. Ele achava que eu era fraca, que eu era sua marionete. Ele não sabia que, por trás daqueles olhos fechados, a mulher que ele estava enganando estava planejando como incendiar o mundo dele.
Ele se levantou e saiu, fechando a porta suavemente atrás de si. Abri os olhos no escuro. A dor ainda estava lá, mas agora ela tinha uma companheira: a determinação. Eles me subestimaram. Eles me usaram. Eles roubaram meus filhos. E eles iriam pagar. Cada um deles.





