A música eletrônica batia forte no meu peito, uma vibração que percorria meu corpo inteiro, mas não chegava nem perto da minha alma. Anos atrás, a música era outra. Era Tchaikovsky, era Stravinsky, e a vibração vinha da ponta dos meus pés tocando o palco de madeira, do meu corpo voando pelo ar. Eu era Sofia, a primeira bailarina, a promessa do balé nacional. Meu futuro era uma partitura perfeitamente escrita, cheia de saltos graciosos e aplausos.
Naquela época, Arthur estava na primeira fila de todas as apresentações. Seus olhos brilhavam mais que as luzes do teatro. Ele me entregava rosas vermelhas, me prometia o mundo. Eu acreditava nele. Acreditava no nosso amor, na nossa vida juntos.
Até a noite do acidente.
A lembrança vinha como um flash de faróis na escuridão, seguida pelo som de metal se contorcendo e vidro se quebrando. Arthur estava bêbado, furioso com o mundo, com o pai, com tudo. Ele pisou no acelerador como se quisesse fugir da própria vida, e me levou junto. O resultado foi uma perna direita que nunca mais se esticaria em um grand jeté, uma carreira destruída antes de realmente começar, e um vazio que nenhuma música conseguia preencher.
O choque da notícia foi demais para a minha mãe. Dona Lúcia, que costurava todos os meus figurinos à mão, que vibrava com cada conquista, teve um colapso. Um AVC severo a deixou em estado vegetativo. De repente, eu não tinha apenas meus sonhos quebrados para carregar, mas também o corpo imóvel da minha mãe e as contas médicas que se acumulavam como uma avalanche.
E, no meio de toda essa ruína, uma pequena vida começava a crescer dentro de mim. Lucas. O filho de Arthur. Ele nunca soube. Eu desapareci.
Agora, meu palco era outro. Um tablado circular e espelhado no centro do "Luxus", uma boate de luxo onde homens ricos vinham gastar dinheiro e esquecer seus nomes. Meu nome aqui era outro também. Luna. A dançarina mais misteriosa, a que nunca sorria de verdade.
Meus movimentos ainda tinham uma certa graça, um eco da bailarina que eu fui, mas agora eram calculados para seduzir, para hipnotizar, para fazer os homens abrirem suas carteiras. Cada real que eu ganhava era para o aluguel, para a comida de Lucas, e para manter minha mãe viva, ligada a máquinas que apitavam em um ritmo monótono, a trilha sonora da minha nova vida.
Eu terminava meu número, o suor escorrendo pelo meu corpo. Desci do palco sentindo a dor familiar na minha perna direita, uma lembrança constante do que perdi. Os homens me olhavam, alguns com desejo, outros com um desprezo mal disfarçado. Eu não sentia nada. Era apenas um trabalho.
Foi então que eu o vi.
Ele estava sentado em um dos camarotes VIP, um espaço reservado para os mais poderosos. O tempo tinha sido generoso com ele. O rosto ainda era o mesmo, mas agora carregava uma autoridade, uma confiança que vinha do dinheiro e do sucesso. Usava um terno caro, perfeitamente cortado, e segurava um copo de uísque. Ele ria de algo que um dos seus amigos dizia, um som que um dia eu amei e que agora me causava náuseas.
Arthur.
Meu coração parou. O ar ficou preso nos meus pulmões. O barulho da boate desapareceu, e tudo o que eu ouvia era o zumbido do meu próprio sangue nos ouvidos. Ele estava ali. Depois de todos esses anos. O homem que destruiu minha vida estava a poucos metros de mim, vivendo o seu melhor momento.
Ao seu lado, uma mulher elegante e bonita o olhava com adoração. Patrícia. Eu a reconheci das colunas sociais. Uma herdeira, uma mulher influente. Sua noiva.
A diferença entre nós era um abismo. Ele, no topo do mundo, um empresário bem-sucedido, noivo de uma mulher da alta sociedade. Eu, no fundo do poço, dançando seminua para sustentar o filho que ele nem sabia que existia e a mãe que ele ajudou a destruir. A injustiça daquela cena queimava dentro de mim, um fogo lento que vinha se acumulando por anos.
Meu gerente, um homem liso chamado César, me deu um empurrão leve nas costas.
"Luna, o que está esperando? O pessoal do camarote sete está chamando. É gente grande. Seja simpática."
Minhas pernas tremeram. Ir até lá? Ficar cara a cara com ele? A ideia me apavorava. Mas então a imagem do rosto de Lucas dormindo e do corpo imóvel da minha mãe no leito do hospital invadiu minha mente. Eu não tinha o luxo de ter medo. Eu não tinha o luxo de ter orgulho.
Respirei fundo, ajeitei a máscara de indiferença no rosto e caminhei em direção ao camarote sete. Cada passo era uma tortura. Eu sentia os olhos dele sobre mim, um olhar curioso, como se eu fosse apenas mais um objeto de entretenimento na sua noite. Ele não me reconheceu. Para ele, eu era apenas Luna, a dançarina.
Parei em frente à mesa, forcei um sorriso.
"Boa noite, senhores. Desejam alguma bebida?"
A minha voz saiu firme, irreconhecível até para mim mesma. Era a voz de Luna, não de Sofia. Os amigos dele me olharam de cima a baixo, com sorrisos maliciosos. Arthur, no entanto, franziu a testa por um segundo, como se tentasse encaixar uma peça perdida em um quebra-cabeça. Mas o momento passou.
"Traga uma garrafa do melhor champanhe que tiverem", ele disse, a voz grave e dominante.
Ele nem sequer olhou nos meus olhos. Apenas me dispensou com um gesto de mão, voltando sua atenção para a noiva perfeita ao seu lado.
Naquele momento, enquanto eu me afastava para buscar o champanhe, a dor e a humilhação se misturaram com algo novo. Uma ideia fria e calculista começou a se formar na minha mente. A vingança nunca tinha sido meu objetivo. Minha luta era pela sobrevivência. Mas agora... agora o destino o tinha trazido de volta. E se ele podia ser a causa da minha ruína, talvez também pudesse ser a chave para a minha salvação. E a dele. Ele iria pagar. Por tudo.





