O ar no camarote VIP era rarefeito, pesado com o cheiro de perfume caro, charutos e poder. Enquanto eu servia o champanhe, sentia os olhares dos amigos de Arthur sobre mim. Eram olhares que me despiam, me avaliavam, me precificavam. Eu era parte do entretenimento da noite, um item no menu de luxos que o dinheiro deles podia comprar. Para eles, eu não tinha um passado, não tinha um nome, apenas um corpo em exibição. A atmosfera era sufocante, uma pressão invisível que me esmagava.
Eu mantinha minha cabeça baixa, focada em encher as taças com a mão firme, uma habilidade que o balé me deu. Mas eu sentia o olhar de Patrícia, a noiva, fixo em mim. Não era um olhar de desejo, como o dos outros homens. Era um olhar de puro desdém. Um olhar que dizia que eu era lixo, uma mancha no seu mundo perfeito e asséptico.
Enquanto eu me inclinava para servir um dos homens, um sujeito gordo e suado com um relógio de ouro que brilhava ostensivamente, ele aproveitou a oportunidade. Sua mão subiu pela minha perna, apertando minha coxa com força.
"E aí, gata? Quanto custa uma dança particular?" ele disse, o hálito de álcool batendo no meu rosto.
Meu corpo inteiro enrijeceu. Aquele toque era uma violação, uma confirmação da minha condição naquele lugar. Eu era um objeto, algo para ser apalpado e comprado. Um nojo profundo subiu pela minha garganta, mas eu sabia que não podia reagir. Reagir significaria perder meu emprego. Significaria não ter dinheiro para o aluguel no fim do mês.
Eu me afastei com um movimento sutil, tentando disfarçar a repulsa.
"O senhor precisa falar com meu gerente sobre isso", respondi com a voz neutra de Luna.
O homem riu, mas foi o olhar de Patrícia que me feriu mais. Ela viu tudo. E em seus olhos, havia uma satisfação cruel, um prazer em me ver humilhada. Ela se inclinou para perto de Arthur e sussurrou algo em seu ouvido, com um sorriso de escárnio nos lábios. Arthur olhou para mim, e pela primeira vez, vi um lampejo de algo que não era indiferença. Era irritação. Como se a minha presença ali, sendo importunada por seu amigo, estivesse estragando a sua noite.
Ele não me defendeu. Ele não disse nada. Apenas desviou o olhar, como se eu não valesse o esforço.
Naquele momento, a comparação entre o que eu era e o que eu me tornei me atingiu com a força de um soco. Eu me lembrei de uma noite, anos atrás, em uma festa elegante depois de uma estreia. Um homem tinha me dito uma palavra mais ousada e Arthur quase partiu para a briga para me defender. "Ninguém fala assim com a minha Sofia", ele rosnou na época. Agora, sua Sofia não existia mais. E a mulher que estava em seu lugar, ele nem sequer a via.
Olhei para Patrícia. Ela era tudo o que eu deveria ter sido. Elegante, respeitada, amada por ele. Seu vestido de seda brilhava sob as luzes, suas unhas eram perfeitas, seu sorriso era confiante. Eu, com meu traje de dançarina, meu corpo cansado e minha alma ferida, era o seu oposto exato. Uma versão sombria e distorcida do que a vida poderia ter sido. A dor dessa constatação era um peso físico no meu peito.
O homem gordo não desistiu. Ele tirou um maço de notas do bolso e o jogou na mesa.
"Vamos lá, Cesar me disse que você é a melhor. Eu pago bem. Quero que você dance para mim. Aqui. Na mesa."
O pedido era a mais profunda das humilhações. Dançar na mesa, como uma striper barata, na frente de todos eles. Na frente de Arthur. O dinheiro na mesa era mais do que eu ganhava em uma semana. Era o dinheiro do aluguel. Era o dinheiro dos remédios da minha mãe.
O silêncio caiu sobre o camarote. Todos os olhos estavam em mim, esperando minha resposta. Vi o sorriso vitorioso de Patrícia. Vi a curiosidade nos olhos dos outros. E vi a indiferença fria no rosto de Arthur.
Minha garganta estava seca. Eu precisava daquele dinheiro.
"Tudo bem", sussurrei. A palavra arranhou minha garganta ao sair.
Patrícia soltou uma risadinha baixa e cruel.
"Arthur, querido, veja só. Ela tem seu preço, afinal. Que patético."
As palavras dela foram como um tapa na cara. Ela se virou para mim, o desprezo evidente em cada traço do seu rosto.
"Anda logo. Faça o seu showzinho. Estamos esperando."
Eu estava prestes a subir na mesa, a engolir a última gota de orgulho que me restava, meu corpo se movendo como um autômato para cumprir a ordem humilhante. Meus músculos tremiam, não pelo esforço, mas pela raiva e pela vergonha que me consumiam.
Mas, quando meu pé tocou a beirada da mesa, uma voz cortou o ar.
"Chega."
A voz era grave, autoritária.
Era a voz de Arthur.





