Marcos olhou de mim para Isabela, um lampejo de confusão em seus olhos.
"Então, como fica o investimento da galeria?", ele perguntou.
Isabela acenou com a mão, displicente.
"Depois, Marcos. Está quase na hora do meu voo para Bariloche, lembra? Você prometeu me levar ao aeroporto."
A atenção dele voltou-se para ela. Instantaneamente.
"Certo, claro. Bariloche."
Ele me olhou, um olhar rápido, quase indiferente.
"Você está bem, Lena? Parece pálida."
Eu apenas assenti.
Palavras pareciam inúteis.
Ele não esperou por uma resposta. Já estava guiando Isabela em direção ao elevador, a mão em seu braço.
As portas se fecharam, me deixando sozinha em seu escritório opulento.
O silêncio foi um alívio.
Saí, os papéis do divórcio assinados um peso sólido na minha bolsa.
Naquela noite, Marcos chegou tarde em casa.
Ele me encontrou na sala de estar, olhando para as luzes da cidade.
Ele veio por trás de mim, colocou as mãos nos meus ombros.
Um gesto familiar. Costumava me fazer sentir segura.
Agora, parecia uma jaula.
"Desculpe o atraso", ele disse, a voz suave. Tentando ser gentil. "O voo da Bela atrasou."
Claro que atrasou.
"Você ainda está chateada com ontem à noite?", ele perguntou.
Chateada? Por ter sido abandonada em uma estrada escura, doente e com dor, por causa da ex-namorada dele?
"Por que eu estaria chateada, Marcos?", perguntei, minha voz sem emoção.
Ele suspirou, um som de paciência ensaiada.
"Olha, a Bela estava genuinamente assustada. O carro dela realmente quebrou. O que eu deveria fazer?"
"O que, de fato", eu disse, virando-me para encará-lo.
Senti o leve cheiro do perfume de Isabela em sua camisa. Chanel nº 5. A marca dela.
"Esta é a última vez, Marcos", eu disse.
Ele franziu a testa. "Última vez para quê? Eu ajudar a Bela? Ela é minha amiga mais antiga, Lena. Você sabe disso."
"Não", eu disse. "A última vez para nós."
Tirei os papéis do divórcio assinados da minha bolsa e entreguei a ele.
Ele olhou para eles, depois para mim.
Incredulidade. Depois raiva.
"Que porra é essa? Você não pode estar falando sério."
Ele sempre dava desculpas para Isabela.
Ela era frágil. Ela estava sozinha. Ela teve uma vida difícil, apesar dos milhões de sua família.
Minha dor, minhas necessidades, eram sempre secundárias.
Ou invisíveis.
Ele costumava me trazer café pela manhã. Puro, com duas colheres de açúcar.
Na manhã seguinte, ele não trouxe.
Ele dormiu no quarto de hóspedes.
Eu fiz uma pequena mala.
Apenas o essencial.
Olhei ao redor do nosso quarto. O lado dele do armário estava arrumado, organizado.
Mas em sua mesa de cabeceira, ao lado de seu relógio e carteira, havia uma pequena foto emoldurada.
Não era minha. Era dele e de Isabela, anos atrás, rindo, com as cabeças juntas.
Quando aquilo apareceu?
Eu nunca tinha notado antes. Ou talvez eu não quisesse notar.
"A Bela deve ter deixado quando estava me ajudando a redecorar no mês passado", ele disse uma vez quando encontrei um de seus lenços jogado sobre uma cadeira.
Ele nem tentava esconder.
Peguei meu suéter de caxemira favorito, aquele que ele dizia que fazia meus olhos parecerem mais verdes.
Eu o dobrei, depois desdobrei.
Coloquei-o de volta na gaveta.
Parecia contaminado.
Tudo neste apartamento parecia contaminado por suas escolhas, pela presença de Isabela.
Andei pelos cômodos.
Meus projetos de design estavam presos em um quadro no pequeno escritório que eu usava. Plantas para um novo hotel boutique no centro. Um painel de inspiração para a reforma de uma cobertura.
Meu trabalho. A única coisa que era verdadeiramente minha.
Retirei os projetos da Torres Empreendimentos. Os ligados à família dele. Aqueles onde eu sempre me senti como um detalhe secundário.
Meus clientes independentes, seus arquivos pareciam limpos.
Eu deveria ir a um baile de caridade naquela noite. O Fundo de Alfabetização Infantil.
Marcos era um patrocinador. Torres Empreendimentos.
Eu sabia que Isabela estaria lá. Na frente e no centro.
Eu não ia.
Mas então pensei, por que não?
Uma última olhada no mundo que eu estava deixando.
O salão de festas estava reluzente. Lustres, champanhe, vestidos de grife.
Isabela estava no centro das atenções perto das mesas do leilão silencioso.
Ela falava animadamente com um grupo de mulheres, sua voz se destacando.
"...e o Marcos foi simplesmente um herói. Ele dirigiu até a Bandeirantes naquela tempestade horrível para me resgatar. Meu carro estava completamente morto. Ele até garantiu que meu motorista o rebocasse no dia seguinte."
Uma das mulheres, uma colunista social que eu conhecia vagamente, se derreteu: "Ele é tão devotado a você, Bela! Sempre foi."
Isabela sorriu, uma imagem de modesta gratidão.
Ela me viu então. Seu sorriso se alargou, mas não alcançou seus olhos.
Ela se desculpou e deslizou em minha direção.
"Lena! Você veio! Que bom. O Marcos estava preocupado que você ainda estivesse chateada."





