Traída Pelo Amor, Rejeitada Pela Família

Marina Germano POV:

Vinte anos atrás, antes de toda essa farsa, antes de Edite se tornar a mulher que preferiu o brilho do dinheiro ao amor da filha, Fabrício Cordeiro era um homem quebrado. Ele havia perdido tudo. Sua esposa o deixou, levando consigo a fortuna da família e a única filha que eles tiveram, Luna. Fabrício se viu sozinho, sem um tostão, afogado em dívidas e amarguras. Enquanto isso, meu pai, um homem humilde e trabalhador, estava construindo seu império do zero. Começou a vida como um simples cozinheiro, mas com paixão e talento, ele transformou seu pequeno negócio em um restaurante renomado.

Minha mãe, Edite, era uma mulher de classe média, com sonhos grandes demais para a realidade dela. Ela tinha sido noiva de Fabrício na juventude, mas a família dela a forçou a romper o noivado e se casar com um homem rico. Mas a vida é uma ironia cruel. O homem rico dela acabou perdendo tudo, e ela se divorciou, sem nada.

Foi então que meu pai, cega por um amor antigo e uma compaixão mal-colocada, a acolheu. Ele a amava com uma intensidade que eu nunca entendi. Ele a via como uma rainha, mesmo que ela fosse uma traidora. Quando minha mãe morreu, o mundo do meu pai desabou. Ele se tornou um homem solitário, desamparado. E foi nesse momento de vulnerabilidade que Edite, agora divorciada e sem dinheiro, reapareceu na vida dele. Ela o seduziu novamente, usando sua beleza e seu passado compartilhado para se infiltrar em seu coração partido.

Eu fui testemunha de tudo. De como ela o manipulava, de como ela o transformava em um fantoche. Lenta e dolorosamente, Edite e Luna me roubaram tudo. Meu pai, minha casa, meu futuro. Elas me tiraram a única coisa que eu tinha: o amor incondicional do meu pai.

Um brilho atravessou os olhos de Luna. Ela acabara de conseguir sua carteira de motorista. Eu a vi se aproximar do meu pai, os passos leves e calculados. Ela era uma atriz nata.

"Pai, eu consegui! Mal posso esperar para ter um carro só meu", ela disse, a voz cheia de uma doçura forçada.

Fabrício a puxou para um abraço. "Parabéns, minha flor! É claro que você terá um carro. O que você quiser, meu amor."

Luna fingiu um rubor, mas eu vi a centelha de ganância em seus olhos. "Ah, pai, mas os carros novos são tão caros. E o carro da Marina... ele é tão bonito. E ela quase não usa."

Eu senti um arrepio na espinha. Era meu carro. O carro que meu pai me deu de presente pelos meus dezoito anos, um modelo antigo, mas restaurado com carinho. Era o último vestígio do pai que eu conhecia, do pai que me amava.

"É mesmo?", Fabrício disse, e se virou para mim, a voz sem emoção. "Marina, você cede seu carro para Luna? Ela precisa de um."

Eu apenas o encarei, o coração apertado. "Não, pai. Eu preciso do meu carro."

"Precisa para quê? Você só usa para ir e vir do trabalho no restaurante. E agora, nem isso. Luna precisa dele para ir para a faculdade, para seus compromissos sociais." Ele revirou os olhos. "Ou você quer que ela ande de ônibus?"

Eu ri, um som sem alegria. "E ela não tem o próprio pai para dar um carro a ela?"

A expressão de Fabrício endureceu. "Não seja insolente, Marina. Luna é minha filha agora."

Eu me lembrei daquele carro, de cada detalhe. O cheiro de couro novo, a música que tocávamos juntos em nossas viagens. Ele me deu as chaves com um sorriso tão largo e genuíno, dizendo que era para eu ir aonde meus sonhos me levassem. Agora, ele me pedia para entregar meu sonho a Luna.

"Não", eu disse, a voz firme. "Este carro é meu. Você me deu."

A raiva encheu os olhos de Fabrício. Ele não estava acostumado a ser desobedecido. Ele havia comprado Edite e Luna, e agora achava que podia me comprar também.

"Vou arrancar suas chaves da sua mão, se for preciso", ele ameaçou.

Eu não pisquei. "Não vai, pai. Porque eu não vou deixar."

Com um movimento rápido, eu tirei as chaves do meu bolso e as lancei no chão, fazendo-as deslizar pelo piso de mármore. O som metálico ecoou na sala, um desafio claro.

Fabrício soltou um rugido. "Você vai se arrepender disso, Marina!"

Ele chamou os seguranças, ordenou que trocassem as fechaduras do carro. E então, ele entregou as chaves para Luna. Eu o observei, impotente, enquanto Luna subia no meu carro, aquele que ele tinha me dado, a face iluminada por um sorriso de pura satisfação.

Eu juro que farei você se arrepender, Fabrício. Você e elas.

Naquele mesmo dia, um raio de sol escaldante atingiu a cidade. A temperatura disparou para níveis insuportáveis. Luna, em sua empolgação, ligou o carro e o deixou no sol, aberto, enquanto corria para buscar suas amigas. Ela esqueceu completamente de mim, do meu carro, do meu sofrimento.

O calor dentro do veículo subiu rapidamente, transformando o interior em um forno. Eu estava ali, ainda na casa, observando o carro no pátio. Eu ouvi quando Luna, depois de algumas horas, voltou para o carro. Ela entrou, mas a porta se trancou sozinha. Um defeito que eu havia reclamado para Fabrício há semanas, mas ele nunca se importou em consertar.

Luna gritou por ajuda, mas quem a ouviria? Fabrício e Edite estavam fora, em uma reunião. Eu a vi bater nos vidros, o desespero crescendo em seu rosto. O calor era insuportável. Ela começou a hiperventilar.

Minutos se arrastaram como horas. Eu a vi cair no banco do motorista, a inconsciência a dominando. Seu celular escorregou da mão dela, e caiu no chão, onde ela não conseguia mais alcançar. Eu podia ouvir seus últimos murmúrios. "Pai... pai..."

O telefone de Fabrício tocou. Era um dos seguranças, alertando-o sobre o incidente. Ele voltou para casa em pânico, o rosto pálido. Viu Luna desmaiada no carro. Ele quebrou a janela e a tirou de lá, o desespero estampado em cada movimento.

Quando Luna acordou, no quarto de repouso, Fabrício estava ao lado dela, os olhos cheios de lágrimas.

"Oh, pai", Luna sussurrou, a voz fraca mas melodiosa. "Eu não sei o que aconteceu. Acho que a culpa foi minha. Eu me esqueci das chaves e do calor. Eu não queria que Marina fosse castigada."

Fabrício se virou para mim, os olhos faiscando de uma fúria cega. "Ela tentou te matar, não foi? É isso mesmo que você está me dizendo?"

Eu senti meu corpo ser arrastado, as mãos firmes de Fabrício em meus braços. Ele não me deu chance de me explicar. Ele me arrastou pelo chão, seus olhos cheios de ódio.

"Você tentou matar sua própria irmã! Você é um monstro!"

Ele me jogou no chão, a força do impacto me deixando sem ar. Eu estava em choque, confusa, sem entender o que estava acontecendo. Ele me acusou de algo que eu nunca faria.

"Prendam-na! Amarrem-na! Ela não vai sair daqui até que aprenda a respeitar a família!"

Os seguranças me amarraram, meus gritos ecoando no estacionamento vazio. Eu não sabia por que, o que eu tinha feito.

Fabrício se ajoelhou na minha frente, seus olhos negros como carvão. "Você vai para o porta-malas. E só vai sair de lá quando pedir perdão por ter tentado matar Luna. E por me desobedecer."

Eu me debati, implorando, mas ele não me ouvia. Ele me jogou no porta-malas do meu próprio carro, o cheiro de couro e metal me sufocando.

"Por favor, pai! O calor! Eu não consigo respirar!"

Ele sorriu, um sorriso cruel que me congelou a alma. "Se não consegue respirar, é melhor pedir perdão logo. E não adianta gritar. Ninguém vai te ouvir."

Ele fechou o porta-malas. A escuridão me engoliu. O calor era insuportável. Eu senti meu corpo arder, meus pulmões se recusando a trabalhar. Eu gritei, gritei até minha voz falhar, até a escuridão me consumir.

E agora, aqui estou eu. Morta. Por quatro dias.

Meu corpo, preso naquele porta-malas, já devia estar em decomposição. Eu podia sentir o cheiro, mesmo como um fantasma. Eu podia ver o líquido escuro escorrendo pelas frestas do carro, atraindo insetos. O motorista do Fabrício, que passou por ali mais tarde, sentiu o cheiro, mas não disse nada. Ele apenas desviou o olhar, como se nada tivesse acontecido.

Eles me deixaram morrer por uma mentira, por um capricho, por um carro. Mas o inferno está apenas começando. E eu serei a guia de vocês.

Chapters
Customize
Next Chapter

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados