Marina Germano POV:
A noite caiu, densa e sufocante, sobre a mansão. Léo, meu leal subchefe, movia-se como uma sombra furtiva pela cozinha, seus passos ecoando no silêncio espectral. Ele esperou até que Fabrício e Edite estivessem adormecidos, imersos em seu sono de falsa tranquilidade. Eu o observava, meu coração fantasma apertado por sua bondade.
Ele sabia que algo estava errado. Eu o sentia. Seu instinto de proteção, aquele que sempre o impulsionou a cuidar de mim no restaurante, agora o guiava para a escuridão da garagem. O ar na garagem era pesado, carregado com um cheiro estranho, um aroma adocicado e fúnebre que se infiltrava em cada fresta.
Léo parou, o nariz franzido. Ele sabia que aquele cheiro era familiar, mas seu cérebro ainda se recusava a aceitar o que seus sentidos lhe diziam. À medida que ele se aproximava do meu carro, o cheiro se intensificava, tornando-se nauseabundo, doce e metálico. Era o cheiro da morte.
Então ele viu. No chão, sob o porta-malas, uma mancha escura e viscosa se espalhava. E nas frestas do metal, pequenos pontos brancos se retorciam lentamente. Vermes.
Um arrepio percorreu a espinha de Léo. Ele sabia. Ele não precisava ver para saber. Uma sensação de pavor se apoderou dele, e seus olhos se arregalaram.
Não, Léo. Não olhe. Eu gritei, meu grito inaudível. Não quero que você veja isso.
Léo estava prestes a abrir o porta-malas, a mão estendida, hesitando. Ele sempre foi um homem bom, leal. Ele tentou me ajudar, eu sei. Ele tentou falar com Fabrício, tentou me defender, mas Fabrício era um tirano, e Léo era apenas um empregado. Seu poder era limitado.
Não, Léo. Por favor, não abra. Você vai se arrepender.
Ele hesitou por um momento, a mão tremendo. Seus olhos se moveram, como se tentassem me encontrar. E então, ele se virou. Não olhou para trás. A visão do que estava lá dentro seria demais para ele. Ele foi embora, a consciência pesada, a bondade ferida.
Na manhã seguinte, Fabrício Cordeiro estava radiante. Não havia nuvens em seu horizonte, apenas o sol de um dia perfeito. Ele tinha nas mãos uma caixa de presente cuidadosamente embrulhada, com um laço de fita dourada. Era o aniversário de Luna.
Ele a presenteou diante de todos, com um sorriso largo e vitorioso. Luna, seus olhos brilhando de antecipação, rasgou o papel com delicadeza calculada. Dentro, as chaves de um carro. Não qualquer carro. Um carro de luxo, mais caro, mais novo, mais reluzente que o meu.
"Pai, é lindo! Muito obrigada!" Luna exclamou, jogando-se nos braços de Fabrício.
Fabrício a apertou em seus braços. "Você merece, minha flor. Um carro novo, digno de você. Não um carro velho e problemático como o da Marina. Aquele carro já deu o que tinha que dar."
Luna pegou as chaves, um sorriso satisfeito em seus lábios. Ela sabia que tinha vencido. Eu a observei, o desgosto me corroendo. Ela era a personificação da vaidade e da crueldade.
Léo se aproximou, sua expressão neutra, mas seus olhos, eu podia sentir, carregavam um peso diferente.
"Senhor, eu sugiro que a Marina seja liberada", Léo disse, a voz controlada, mas com uma firmeza que surpreendeu Fabrício.
A expressão de Fabrício escureceu. "Léo, não se intrometa onde não é chamado. Eu sei o que estou fazendo."
"Senhor, eu acho que ela já pode estar... morta."
As palavras caíram na sala como pedras. Fabrício me olhou com raiva. Léo não o temeu. Ele havia sentido o cheiro. Ele havia visto os vermes. Ele sabia. O cheiro de podridão ainda estava em suas narinas. Léo teve que se controlar para não vomitar ali mesmo.
Luna, a atriz principal, rapidamente se recuperou. "Pai, Léo tem razão. É um absurdo! Como podemos deixá-la lá? E se ela morrer de verdade? Nós podemos ser responsabilizados." Ela forçou as palavras, mas eu podia sentir o medo em sua voz. Não por mim, mas pelas consequências.
Fabrício, mais uma vez, cedeu aos caprichos de sua filha. "Tudo bem, tudo bem! Liberem-na. Mas cortem todos os cartões dela. Ela vai ter que se virar sozinha. Aprender a valorizar o que tem."
Eu ri, um riso oco. "Valorizar o que eu tenho? Fabrício, tudo o que você tem veio da minha mãe. Você é um parasita, um assassino!"
Léo agiu rapidamente. Ele convocou os outros empregados. "Vamos! Abram o porta-malas!"
A garagem foi invadida pelo cheiro fétido. Os empregados, cobrindo o nariz, recuaram, alguns vomitando. O horror em seus rostos era evidente.
Fabrício e Edite chegaram, os rostos contorcidos de nojo. "O que é esse cheiro imundo? Léo, controle essa gente! E você, Marina, não podia ser mais imunda?"
"Não podia ser mais imunda?", eu repeti, a voz cheia de ódio. "Você me chama de imunda, Fabrício, enquanto meu corpo se decompõe no seu carro? Você é o monstro aqui!"
Fabrício, com nojo, deu a ordem. "Afastem esse carro! Mandem para um ferro-velho! Que nojo!"
Os empregados se entreolharam, apavorados. Eles sabiam que algo terrível havia acontecido.
"Não me obedeçam?", Fabrício gritou, sua voz cheia de ameaça. "Quem não abrir esse porta-malas agora está demitido!"
Com as mãos tremendo, os empregados abriram o porta-malas. A luz do dia revelou a cena. Um corpo. Meu corpo. Deformado pelo calor, consumido pela morte.
Aqui estou eu, Fabrício. Seu assassino. Seu carrasco. E a sua vida, a partir de agora, será o meu purgatório.





