Tarde Demais Para o Seu Perdão Agora

Ponto de Vista de Kiara Campos:

O celular, ainda apertado na minha mão, vibrava com o fantasma da presença de Jonas. Joguei-o no banco do passageiro, a rejeição uma ferroada familiar, mas desta vez, parecia diferente. Parecia liberdade. A raiva era um fogo na minha barriga, queimando os últimos vestígios da garota patética que perseguia a aprovação de um homem.

O trajeto até a mansão do meu pai, um pesadelo extenso de mármore e indiferença dourada, foi um borrão. Minha mente repassava as palavras insensíveis de Jonas, seus olhos vazios enquanto ele se afastava, a imagem repugnante dele entregando a pulseira da minha mãe para Kécia. Cada memória era um corte fresco, mas cada corte endurecia minha determinação.

Estacionei o carro na entrada meticulosamente cuidada, a grandeza familiar parecendo sufocante. Esta era a casa onde minha mãe tinha sido vibrante, onde o riso dela costumava ecoar. Agora, era um mausoléu da memória dela, um monumento à traição do meu pai e à escalada social implacável de Débora.

Enquanto eu caminhava pela entrada grandiosa, o silêncio era ensurdecedor. Sem empregados correndo, sem Débora orquestrando outra gala beneficente. Apenas o ar viciado de uma casa grande demais para seus habitantes, e uma sensação de desgraça iminente pairando pesada.

Meu pai, Kleber Campos, estava sentado em seu escritório, um copo de líquido âmbar na mão, seu terno geralmente impecável parecendo amassado. Ele não levantou os olhos dos papéis quando entrei.

"Pai", eu disse, minha voz monótona, desprovida de emoção.

Ele se assustou, a cabeça levantando bruscamente. Seus olhos, geralmente astutos e calculistas, continham um lampejo de surpresa, rapidamente mascarado por uma irritação familiar. "Kiara. O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse com o Jonas."

A ferida aberta no meu peito latejou. "Jonas e eu terminamos", declarei, as palavras com gosto de cinzas, mas carregando um poder novo e desconhecido.

As sobrancelhas do meu pai se ergueram. Ele largou o copo, uma rara demonstração de atenção. "Terminaram? O que aconteceu? Você fez alguma coisa?" O tom dele era acusatório, já me culpando.

Cerrei os punhos. "Ele deu a pulseira de herança da minha mãe para a Kécia. Depois que ela quase me mandou para o hospital com um ataque de alergia a amendoim."

A expressão dele não mudou. Nem um lampejo de raiva por Kécia, nem um sinal de preocupação comigo. Apenas um cálculo pragmático. "A Cartier? Aquela era uma peça substancial. Mas Kécia... ela é tão delicada. Talvez ela precisasse se animar. E a alergia, Kiara, você sabe como ela é sensível. Você deve tê-la provocado."

Meu estômago revirou. Esse era meu pai. O homem que deveria me proteger. Ele sempre tinha sido assim, fechando os olhos para as manipulações de Kécia, desculpando a crueldade de Débora. A morte da minha mãe me deixou exposta, vulnerável à erosão implacável da minha autoestima por eles.

"Provoquei ela?" Eu ri, um som agudo e amargo. "Ela sabia, pai. Ela sempre soube. E Jonas deixou ela fazer isso. Ele a escolheu em vez de mim."

"Bobagem", ele acenou com a mão, desdenhoso. "Jonas é um homem ocupado. Ele se importa com você, Kiara. Ele só tem muita coisa na cabeça."

A ilusão à qual me agarrei por tanto tempo, a crença de que Jonas realmente se importava, desmoronou em pó. Nunca foi sobre mim. Era sobre o senso de dívida mal colocado dele com Kécia, e a necessidade desesperada do meu pai de garantir um genro poderoso.

"Ele não se importa comigo", eu disse, minha voz subindo, tremendo com uma raiva recém-descoberta. "Ele nunca se importou. Eu era apenas um troféu, um brinquedo. E eu cansei de brincar."

O maxilar do meu pai endureceu. "Cuidado com o tom, Kiara. Você está sendo ingrata. Jonas é um partidão. Você não vai encontrar ninguém melhor."

"Eu não quero ninguém melhor", cuspi. "Eu quero sair. Sair disso, sair dele, sair de todos vocês."

Um pensamento repentino, frio e claro, perfurou a névoa da minha raiva. O contrato de casamento. Aquele que ele tinha empurrado debaixo do meu nariz semanas atrás, tentando salvar sua empresa falida. Ele queria que eu me casasse com Gabriel Salles, o suposto "Príncipe Adormecido". Ele queria que eu fosse uma filha obediente, um cordeiro sacrificial.

Uma ideia perigosa se formou na minha mente. E se eu dissesse sim? Não por ele, mas por mim. Por um corte limpo. Por uma chance de recuperar algo, qualquer coisa, do legado da minha mãe.

"Você queria que eu assinasse aquele contrato, não queria?" perguntei, minha voz baixa e firme. "Aquele para o Gabriel Salles."

Meu pai ficou rígido. "Kiara, isso não é... Foi uma sugestão. Uma oportunidade de negócio."

"É mais do que isso, não é? Sua empresa está sangrando. Você precisa do capital da família Salles. E você precisa que eu seja o cordeiro sacrificial."

Ele desviou o olhar, um sinal revelador de sua culpa. "Isso estabilizaria as coisas, Kiara. Pela família."

"Pela sua família, pai. Não a minha." A caridade da minha mãe. Eu sempre amei aquilo. Era a paixão dela, o legado dela. Mas Débora e Kécia tinham lentamente desviado seus fundos, transformando-a em mais um de seus projetos de vaidade.

"Eu farei isso", eu disse, minha voz firme. "Eu me casarei com Gabriel Salles."

A cabeça do meu pai levantou bruscamente, os olhos arregalados de surpresa. "Você vai?"

"Com uma condição." Encontrei o olhar dele, meus olhos duros. "Eu quero controle total e irrevogável da fundação de caridade da minha mãe. Cada centavo, cada decisão. E eu quero as ações da Campos Enterprises que minha mãe me deixou. Não mantidas em fundo fiduciário, não gerenciadas por você. Diretamente no meu nome. Agora."

O queixo dele caiu. "Kiara! Isso é absurdo! A caridade precisa de supervisão adequada. E suas ações... isso é uma parte significativa da empresa!"

"Era o legado da minha mãe", rebati, minha voz revestida de aço. "E é meu direito. É pegar ou largar. Estou me afastando de Jonas. Se você não concordar, eu me afasto de tudo. Você pode assistir sua empresa desmoronar enquanto Kécia usa seu dinheiro para comprar mais cristais para os retiros de 'bem-estar' dela."

A porta rangeu ao abrir. Débora, minha madrasta, estava lá, seu cabelo loiro perfeitamente penteado e vestido de grife um contraste gritante com a atmosfera sombria. Kécia, sempre a sombra, espiava por cima do ombro dela, os olhos arregalados com falsa inocência, mas um brilho malicioso brilhava por baixo.

"Que gritaria é essa?" Débora ronronou, seu olhar me varrendo com desdém. "Kiara, querida, você parece absolutamente pavorosa. Jonas finalmente se cansou dos seus teatros?"

Kécia riu, um som doce e enjoativo.

Meu pai, nervoso, tentou intervir. "Débora, agora não. Kiara e eu estamos discutindo algo importante."

"Ah, importante, é?" Débora sorriu com escárnio, os olhos se estreitando em mim. "Ouvi sobre o incidente do macaron. Sério, Kiara, você deve parar de tentar competir com a Kécia. É constrangedor. Ela é muito mais... delicada."

Meu sangue gelou. "Delicada?" Rosnei, meu controle se partindo. "Sua filha 'delicada' quase me matou. E você fica aí, defendendo ela? Vocês duas são criaturas tóxicas e venenosas."

Débora engasgou, fingindo ofensa. "Kiara! Como ousa falar comigo assim? Depois de tudo que fizemos por você!"

"Fizeram por mim?" Eu ri, um som verdadeiramente insano. "Vocês arruinaram minha reputação, espalharam boatos, roubaram minha herança e tentaram me envenenar. O que exatamente vocês fizeram por mim, Débora? Além de transformar minha vida em um inferno?"

Meu pai bateu o punho na mesa. "Chega! Kiara, já chega! Peça desculpas a Débora e Kécia imediatamente!"

Meu olhar travou com o dele. "Não farei tal coisa. Meus termos permanecem. A caridade, minhas ações, ou eu vou embora. E eu prometo a você, pai, se eu for embora, vou garantir que o mundo saiba exatamente que tipo de homem você é. E que tipo de 'família' você tem."

O rosto de Débora se contorceu em um rosnado feio. "Kleber, não se atreva! Ela está te chantageando! Aquela caridade é praticamente nossa! E as ações dela... isso nos paralisaria!"

"Não é chantagem", eu disse, minha voz assustadoramente calma. "É uma proposta de negócio. Assim como sua proposta para eu me casar com um homem em coma."

Meu pai olhou do meu rosto determinado para o furioso de Débora, depois para o bico de Kécia. O medo da ruína financeira guerreava com sua lealdade fraca à sua nova família. O lucro sempre vencia com Kleber Campos.

Ele finalmente afundou na cadeira, passando a mão pelo rosto. "Tudo bem", ele rangeu os dentes. "Mas se você nos trair..."

"Eu não vou trair vocês", eu disse, um sorriso frio se formando em meus lábios. "Só estou finalmente me colocando em primeiro lugar. Prepare os papéis. Hoje à noite. Quero tudo por escrito, legalmente vinculativo, antes do sol nascer."

Débora gritou. "Kleber! Você não pode estar falando sério!"

"Cale a boca, Débora!" Meu pai retrucou, a voz rouca. Ele sabia que estava encurralado. "Apenas... cale a boca." Ele olhou para mim, um lampejo de algo, talvez medo, talvez respeito, em seus olhos. "Você negocia pesado, Kiara."

"Aprendi com o melhor", retruquei, um aceno sutil em direção a ele.

Virei-me para sair, uma estranha sensação de triunfo se misturando com a dor amarga. Quando cheguei à porta, ouvi o sussurro furioso de Débora.

"Ela finalmente quebrou", ela sibilou para meu pai. "Olhe para ela, ela está desmoronando. Ela assinará qualquer coisa para escapar. Vamos recuperar as ações dela eventualmente, Kleber. Apenas concorde com ela por enquanto. Deixe-a brincar de rainha de sua caridade patética."

A voz de Kécia, doce como veneno, interveio. "Sim, papai. Kiara é tão emocional. Ela vai se arrepender disso."

Parei, a mão na maçaneta. Meu coração, que tinha acabado de começar a sentir uma frágil sensação de calma, endureceu ainda mais. Desmoronando? Arrependimento? Ah, elas não tinham ideia. Isso não era desmoronar. Isso era eu, finalmente, fria e meticulosamente me recompondo.

Eu não pegaria apenas a caridade e as ações. Eu pegaria tudo o que elas já tinham tirado de mim. Eu faria com que se arrependessem deste dia.

Meus passos ecoaram enquanto eu caminhava pelo longo corredor, longe de seus sussurros venenosos. Eu precisava de um momento. Um lugar para lamentar a garota que eu tinha sido, e para abraçar a mulher que eu estava me tornando.

Entrei no pequeno jardim coberto de mato escondido nos fundos da propriedade. Minha mãe costumava passar horas aqui, cuidando de suas rosas. Ajoelhei-me perto de um arbusto murcho, traçando o contorno de uma flor desbotada. "Mãe", sussurrei, a palavra uma dor crua no meu peito. "Sinto muito. Deixei que me machucassem por tempo demais."

Uma única lágrima escapou, traçando um caminho pela minha bochecha, mas não era uma lágrima de fraqueza. Era uma lágrima de determinação. Eu honraria a memória dela. Eu garantiria que sua caridade prosperasse, genuinamente, não como uma fachada para a escalada social de Débora. E eu garantiria que Jonas, Kécia e meu pai entendessem o preço de sua traição.

O sol estava começando a pintar o céu com faixas de laranja e roxo. Um novo dia. Uma nova Kiara.

A papelada seria assinada. O casamento aconteceria. E Jonas Chaves, junto com todos que me injustiçaram, logo descobririam a profundidade da minha determinação. Eles achavam que eu estava quebrada. Eles estavam prestes a descobrir o quão errados estavam.

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