Tarde Demais Para o Seu Perdão Agora

Ponto de Vista de Kiara Campos:

O cheiro de champanhe velho e desespero impregnava o ar no escritório do meu pai. A tinta nos contratos mal tinha secado, mas o peso do papel na minha mão parecia sólido, real. A caridade da minha mãe, a Fundação Campos, finalmente livre dos dedos gananciosos de Débora. Minhas ações, não mais um peão nos jogos do meu pai. O preço? Meu casamento com Gabriel Salles, o "Príncipe Adormecido". Uma troca sombria, mas necessária.

Saí do escritório, os documentos legais guardados em segurança na minha bolsa. Uma estranha leveza ergueu meus ombros, mesmo quando uma dor oca se instalou no meu peito. A velha Kiara, aquela que amava Jonas, estava oficialmente morta.

Ao me aproximar da sala de estar, ouvi vozes. Mais especificamente, a risadinha enjoativa de Kécia e a risada profunda e ressonante de Jonas. Meus passos vacilaram. Um nó frio apertou meu estômago. Eles estavam aqui. Já.

Empurrei a porta, um fantasma de sorriso brincando em meus lábios. A cena era perfeitamente coreografada. Kécia, pendurada no braço de Jonas como uma trepadeira delicada, a cabeça inclinada para ele, os olhos brilhando. Jonas, parecendo impecavelmente desgrenhado, uma mecha de cabelo escuro caindo sobre a testa, olhando para ela com uma ternura que eu nunca tinha recebido de verdade. Meu pai e Débora estavam sentados em frente a eles, radiantes com o que eu agora reconhecia como pura e absoluta ganância.

"Kiara, querida!" Débora arrulhou, a voz pingando doçura falsa. "Olha quem decidiu nos agraciar com sua presença! Jonas veio animar a pobre Kécia."

Kécia, pegando meu olhar, conseguiu dar uma fungada delicada, depois enterrou o rosto mais fundo no ombro de Jonas. Ele acariciou o cabelo dela, o olhar oscilando para mim, um lampejo de algo ilegível em seus olhos antes de voltar para Kécia.

Meu coração deveria ter se estilhaçado. Deveria. Mas não o fez. Parecia uma casca seca, quebradiça e insensível. As lágrimas tinham ido embora, substituídas por uma raiva fria e abrasadora.

Soltei uma risada suave e zombeteira, um som que fez todos na sala virarem a cabeça, as expressões variando de aborrecimento a choque total.

Meu pai franziu a testa, a atenção imediatamente de volta em Jonas. Ele raramente olhava diretamente para mim, a menos que quisesse algo. "Kiara, não seja rude. Jonas teve a gentileza de se juntar a nós."

Eu o ignorei, meu olhar fixo em Jonas. Ele estava bonito. Bonito demais. O tipo de beleza que faz você querer odiá-lo, mesmo sabendo que o ódio é uma emoção desperdiçada.

Caminhei até o aparador, servi uma taça de champanhe e tomei um longo gole. As bolhas fizeram cócegas na minha garganta, mas o amargor permaneceu.

"Então", Kécia interveio, a voz surpreendentemente clara para alguém supostamente "chateada", "Kiara, o que você está fazendo aqui? Achei que você estava... fazendo as pazes consigo mesma." Ela pontuou a última frase com um olhar significativo para Jonas, como se dissesse: Ele é meu agora.

O aperto de Jonas no braço de Kécia aumentou quase imperceptivelmente. Ele finalmente olhou para mim, um olhar direto e inquietante. "Kiara. Você está se sentindo melhor? Sobre o... incidente?"

O incidente. Ele não tinha ligado, não tinha visitado. Ele não se importava. Ele estava apenas atuando para Kécia.

"Ah, muito melhor, Jonas", respondi, minha voz suave, quase ronronando. "Acontece que algumas coisas são melhores deixadas para trás. Como relacionamentos tóxicos e pessoas que priorizam meias-irmãs manipuladoras em vez de suas supostas namoradas."

Os olhos de Jonas se estreitaram. Kécia engasgou dramaticamente, afastando-se um pouco. "Kiara! Como você pode dizer uma coisa dessas? Eu estava tão preocupada com você!"

"Preocupada o suficiente para me mandar flores?" Desafiei, minhas sobrancelhas erguidas. "Preocupada o suficiente para visitar? Ou preocupada o suficiente para garantir que Jonas escolhesse você em vez de mim, mesmo quando eu estava em uma cama de hospital?"

"Kiara!" A voz de Jonas foi afiada, um tom de aviso que eu conhecia bem. "Já chega. Kécia ficou muito abalada com o que aconteceu. Você não deveria culpá-la."

Eu ri de novo, um som mais frio e cortante desta vez. "Abalada? Ela estava praticamente comemorando. Não insulte minha inteligência, Jonas. Ou a sua, aliás."

Ele se moveu, soltando Kécia e dando um passo em minha direção. "Kiara, estou te avisando. Não me provoque."

"Ou o quê?" Desafiei, encontrando o olhar dele de frente. "Você vai me expulsar? Você já fez isso, não fez? Você me deixou por ela." Gesticulei vagamente para Kécia, cujos olhos agora estavam se enchendo de lágrimas perfeitamente cronometradas.

"Kiara!" Meu pai finalmente interveio, o rosto pálido. "Pare com isso imediatamente! Jonas, por favor, perdoe minha filha. Ela está... perturbada. Ela não sabe o que está dizendo."

"Ah, eu sei exatamente o que estou dizendo, pai", corrigi, meus olhos ainda travados com os de Jonas. "Estou dizendo que você é um covarde, Jonas. Um homem sem espinha que não consegue ver além do próprio ego e das lágrimas de uma mulher manipuladora."

O rosto dele escureceu, um brilho perigoso nos olhos. Ele claramente não estava acostumado a falarem com ele dessa maneira. A velha Kiara teria desmoronado, pedido desculpas, implorado por perdão. Esta Kiara, no entanto, não sentia nada além de uma satisfação feroz.

"Kiara, acho que você deve ir embora", disse Jonas, a voz baixa e ameaçadora. "Antes que diga algo de que realmente se arrependa."

"Arrependimento?" Zombei. "A única coisa de que me arrependo é ter desperdiçado anos com você. Agora, se me derem licença, tenho negócios importantes para tratar. Negócios que realmente geram lucro real, não apenas uma fachada de 'bem-estar' para o último golpe da Kécia."

Virei-me, um lampejo de algo nos olhos do meu pai que parecia suspeitosamente com admiração, rapidamente substituído por medo.

"Do que ela está falando, Kleber?" Débora exigiu, agarrando-se ao braço do meu pai.

Meu pai pigarreou, evitando os olhares deles. "Não é nada. Apenas... Kiara sendo Kiara."

"Ah, é alguma coisa", intervim, virando-me para encará-los, um brilho travesso nos olhos. "É o futuro, pai. E não envolve eu ser o animal de estimação do Jonas, ou o bode expiatório da Kécia."

Kécia, sempre a mestre do desvio, fungou novamente. "Jonas, Kiara está sendo tão má comigo. Eu só queria me sentir melhor, e ela está piorando as coisas."

Jonas imediatamente se moveu para o lado dela, puxando-a para um abraço protetor. Ele me fuzilou com o olhar. "Kiara, peça desculpas à Kécia. Agora."

Meu maxilar endureceu. "Pedir desculpas? Pelo quê? Por dizer a verdade? Por estar cansada dos jogos dela e da sua cegueira?"

"Kiara!" ele rugiu, a paciência claramente se esgotando. "Se você não pedir desculpas, vou garantir que você perca tudo. Sua posição social, sua reputação, tudo o que você acha que tem."

Minha risada foi genuína desta vez, afiada e desequilibrada. "Você acha que pode tirar mais alguma coisa de mim, Jonas? Você já levou meu coração, minha dignidade e a pulseira da minha mãe. O que mais você poderia tirar?" Fiz uma pausa, meu olhar varrendo meu pai e Débora. "Ah, espere. Eu sei. A empresa do meu pai. Você pode levar isso também. Já está desmoronando, graças às brilhantes decisões de negócios dele e ao apetite insaciável de Kécia por projetos de vaidade."

O rosto do meu pai ficou cinza. Débora engasgou. Os olhos de Jonas, no entanto, mostraram um lampejo de surpresa confusa.

"Do que você está falando?" ele exigiu, o aperto em Kécia afrouxando.

"Ah, nada demais", eu disse, dando de ombros casualmente. "Apenas que vou me casar oficialmente com Gabriel Salles. Para salvar a família Campos, é claro. Meu pai insistiu." Sorri, um sorriso frio e predatório. "Então, veja bem, Jonas, dificilmente estou em posição de perder alguma coisa. Na verdade, estou ganhando um marido. E um nome de família poderoso. Enquanto você está preso com... bem, com a Kécia." Pisquei para Kécia, cujo rosto tinha ido de choroso para horrorizado.

Jonas olhou para mim, a boca ligeiramente aberta. Ele a abriu para falar, mas nenhuma palavra saiu.

Kécia, no entanto, encontrou a voz. "O quê? Não! Kiara, você não pode! Você está com o Jonas! Você o ama!" Ela olhou para Jonas, os olhos arregalados e em pânico. "Diga a ela, Jonas! Diga a ela que ela não pode!"

O olhar de Jonas estava fixo em mim, uma tempestade se formando em seus olhos. Ele não falou. Ele não conseguia.

Meu pai parecia aliviado, Débora parecia furiosa e Kécia parecia totalmente traída. Um quadro perfeito.

"Bem", eu disse, tomando outro gole de champanhe. "Foi uma noite adorável. Mas tenho um casamento para planejar. E uma nova vida para construir. Uma que não envolva fingir ser menos do que sou, apenas para deixar os outros confortáveis."

Coloquei a taça na mesa com um tilintar delicado, depois me virei e saí da sala de estar, deixando para trás o silêncio atordoado e os destroços da ilusão perfeita deles. O ar lá fora parecia fresco, limpo. Pela primeira vez em muito tempo, eu conseguia respirar.

A batalha não tinha acabado. Longe disso. Mas o primeiro tiro tinha sido disparado. E não foi apontado para mim desta vez.

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