Tarde Demais Para Amar: Ela Encontrou o Verdadeiro Laço

Naquele dia, a minha avó, que sofria de Alzheimer, teve uma recaída súbita e foi levada de urgência para o hospital.

O médico disse que a condição dela era grave e que, sem um tratamento experimental caríssimo, ela poderia não sobreviver por muito mais tempo.

Eu fiquei parada no corredor do hospital, sentindo o mundo desabar à minha volta. Eu tinha apenas dezoito anos e tinha acabado de entrar na faculdade de arquitetura, o meu sonho. Mas o custo do tratamento era uma montanha que a nossa família humilde de Salvador nunca poderia escalar.

Desesperada, liguei para o único número que representava uma possível saída, um número que eu nunca pensei que usaria.

A chamada foi atendida rapidamente.

"Decidiu?"

A voz do outro lado era profunda e fria, a voz de Benjamin Contreras.

Eu mordi o lábio com força, o gosto de sangue enchendo a minha boca.

"Eu concordo."

"Ótimo. O dinheiro estará na conta do hospital em dez minutos. O meu motorista vai buscá-la em uma hora. Saiba o seu lugar, Raegan."

Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Dez minutos depois, a enfermeira chamou-me, com os olhos arregalados, dizendo que a conta do tratamento da minha avó tinha sido totalmente paga.

Uma hora depois, um carro de luxo preto parou em frente ao hospital. Entrei, deixando para trás a minha dignidade e o meu futuro.

Naquela noite, na sua luxuosa mansão com vista para o mar, tornei-me a amante de Benjamin Contreras, um magnata da construção dez anos mais velho que eu.

Benjamin mimava-me de uma forma que me deixava tonta. Ele descobriu que eu admirava a restauração do Palácio Rio Branco e, no dia seguinte, arranjou-me um estágio "especial" no projeto, dando-me acesso a plantas e materiais que outros estagiários só podiam sonhar.

Quando tive uma crise de enxaqueca, ele cancelou uma reunião crucial com investidores em São Paulo e voou de volta para Salvador só para cuidar de mim. Ele segurou a minha cabeça, massajou as minhas têmporas e ficou ao meu lado até eu adormecer.

No meu vigésimo aniversário, ele levou-me de surpresa para o Rio de Janeiro. Acordámos de madrugada para ver o nascer do sol no Corcovado. Com os primeiros raios de sol a pintar o céu, ele abraçou-me por trás e sussurrou no meu ouvido.

"Pequena, todos os anos, estarei aqui com você."

Eu acreditei nele. Acreditei que era amada.

Essa ilusão durou dois anos, até ao dia em que Fiona Lawrence regressou da Europa.

Ela marcou um encontro comigo num café sofisticado em Ipanema. Era alta, elegante, e olhava para mim com um desprezo mal disfarçado.

"Raegan Miller, certo?"

Ela nem esperou pela minha resposta. Empurrou um cheque na minha direção, sobre a mesa de mármore.

"Um milhão de reais. Para você desaparecer da vida do Ben."

O meu coração gelou.

"Não sei do que está a falar."

Fiona riu, um som frio e cortante.

"Não se faça de tonta. Você é a pequena substituta dele, não é? A paixão pela arquitetura, o fascínio por edifícios históricos... tudo tão parecido comigo."

Ela inclinou-se para a frente, os seus olhos a faiscar.

"Vamos fazer uma aposta. Para ver quem ele realmente valoriza."

O meu estômago revirou-se de ansiedade.

"Eu vou mandar uma mensagem para o Ben a dizer que o meu carro avariou na Linha Amarela. Você vai mandar uma a dizer que sofreu um acidente de carro. Vamos ver para quem ele liga primeiro."

O desespero tomou conta de mim. Eu precisava de provar a mim mesma que ela estava errada.

"Eu aceito."

Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer e digitei a mensagem. Fiona fez o mesmo, com um sorriso vitorioso no rosto.

Enviámos as mensagens ao mesmo tempo.

O meu coração batia descontroladamente no meu peito. Os segundos pareciam horas.

Então, o telemóvel de Fiona tocou.

O nome "Ben" brilhava no ecrã.

Ela atendeu, colocando-o em alta voz. A voz preocupada de Benjamin encheu o café.

"Fiona? O que aconteceu? Onde você está? Não se mexa, estou a caminho."

O meu telemóvel permaneceu silencioso. O meu mundo desmoronou.

Fiona desligou a chamada, o seu sorriso era cruel.

"Viu? Ele nem sequer se importou com o seu 'acidente'."

As lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas ela não tinha terminado.

"O estágio no Palácio Rio Branco? Foi lá que o Ben me pediu em namoro. A viagem ao Corcovado para ver o nascer do sol? Foi o nosso ritual de aniversário durante cinco anos. Ele nunca te amou, Raegan. Você foi apenas uma sombra, uma imitação barata para preencher o vazio que eu deixei."

Cada palavra era um golpe. A humilhação queimava-me por dentro. Eu era uma piada.

Empurrei o cheque de volta para ela, mas a minha mão tremia tanto que ele caiu no chão. Curvei-me para o apanhar, as minhas unhas a cravarem-se na minha palma.

"Eu vou desaparecer", murmurei, a minha voz era um fio.

Levantei-me e saí do café, sentindo os olhares de todos sobre mim. A chuva tinha começado a cair, uma garoa fina e fria.

Quando cheguei à esquina, o carro de Fiona passou por mim em alta velocidade, jogando a água suja de uma poça sobre o meu vestido. Ouvi a sua gargalhada a ecoar enquanto ela se afastava.

Fiquei ali, encharcada e humilhada, a chuva a misturar-se com as minhas lágrimas. Naquele momento, o meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Atendi, a voz embargada.

Era o meu antigo professor da faculdade.

"Raegan? Sou eu, Professor Alves. Sei que é em cima da hora, mas a bolsa de estudos para Lisboa... a vaga ainda é sua, se a quiser. É a sua última oportunidade. Preciso de uma resposta até amanhã."

A bolsa que eu tinha recusado para ficar com Benjamin. Uma porta que eu pensei ter fechado para sempre.

"Eu aceito", disse eu, a minha voz subitamente firme. "Eu vou para Lisboa."

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados