Tive quinze dias para organizar a minha partida. Quinze dias para apagar dois anos da minha vida.
Em segredo, tratei do meu passaporte, da matrícula na universidade e da minha passagem. Durante o dia, eu fingia que nada tinha mudado. À noite, no silêncio do meu quarto, eu empacotava a minha vida em caixas.
Encontrei a maquete que passei meses a construir. Era uma casa de praia, um presente de aniversário para Benjamin. Cada detalhe, desde a varanda com vista para o mar até ao pequeno estúdio de arquitetura, tinha sido pensado para ele, para nós.
Olhei para ela por um longo momento, a dor a apertar-me o peito. Depois, com um movimento decidido, peguei nela e atirei-a para o lixo.
O meu voo estava marcado para o dia do aniversário de Benjamin.
Naquela manhã, acordei com uma febre alta e uma dor de cabeça latejante. O meu corpo estava a protestar contra o stress e a dor emocional. Eu mal conseguia ficar de pé.
Tomei um analgésico e deitei-me, esperando que o efeito começasse. Foi então que o meu telemóvel tocou. Era o assistente de Benjamin, Ricardo.
"Senhorita Miller, o Senhor Contreras pede que venha ao escritório. Ele e a Senhora Lawrence estão à sua espera."
A minha cabeça girava.
"Eu não me estou a sentir bem, Ricardo. Não posso ir."
"São ordens do Senhor Contreras. Ele disse que é importante."
A sua voz era firme, sem espaço para discussão. Arrastei-me para fora da cama, o meu corpo a tremer. Vesti-me e chamei um táxi.
Quando cheguei ao imponente edifício da Contreras Empreendimentos, o meu corpo estava coberto de suor frio. Ricardo levou-me até à sala de reuniões, mas parou à porta.
"Por favor, espere aqui um momento."
A porta estava entreaberta. Ouvi vozes lá de dentro. A voz de Fiona, melosa e provocadora.
"Ben, querido, porque é que ainda a mantém por perto? Ela é apenas um peso morto. Uma distração. Agora que eu voltei, você não precisa mais do seu pequeno pássaro dourado."
Um silêncio pesado. Depois, a voz de Benjamin, fria e calculada.
"Ela ainda tem o seu propósito, Fiona. Tenha paciência."
O meu coração partiu-se em mil pedaços. Pássaro dourado. Peso morto. Era isso que eu era para ele. Uma ferramenta. Uma peça num jogo que ele estava a jogar com Fiona. A bile subiu-me à garganta.
Fiona abriu a porta de repente, o seu sorriso a alargar-se quando me viu.
"Olha quem está aqui! A pequena Raegan. Entre, querida. O Ben estava ansioso por vê-la."
Ela puxou-me para dentro da sala. Benjamin estava sentado à cabeceira da mesa, o seu olhar impassível. Quando me viu, o seu rosto suavizou-se numa máscara de preocupação.
"Pequena, você está pálida. Está tudo bem?"
Ele levantou-se e veio na minha direção, a sua mão a tocar a minha testa. O seu toque, que antes me confortava, agora queimava a minha pele.
"Você está com febre."
Ele agia como se Fiona não estivesse ali, como se a conversa que eu acabara de ouvir nunca tivesse acontecido. A sua atuação era perfeita.
Fiona observava-nos com os braços cruzados, um brilho divertido nos olhos. Ela estava a desfrutar do espetáculo.
Eu não disse nada. Fiquei parada, deixando-o representar o seu papel. A dor dentro de mim era tão intensa que se transformou numa estranha calma. Eu já não sentia nada. Era apenas uma espectadora da minha própria humilhação.
Eu era a sua ferramenta para provocar Fiona. E eu ia desempenhar o meu papel até ao fim.





