Ponto de Vista de Elisa:
O frio na brisa da noite não era nada comparado ao que se instalou em meu coração. Bruno não me seguiu. Ele nem mesmo olhou para cima. O alerta de notícias no meu celular, já se espalhando como fogo, confirmou sua traição. Meu histórico perfeito, irrevogavelmente manchado.
Dirigi sem rumo, as luzes da cidade refletindo minha realidade estilhaçada. Meu celular tocou; era minha assistente, sua voz frenética, perguntando sobre a retratação. Eu disse a ela para publicá-la, para fazer parecer crível, mesmo que cada palavra fosse uma mentira. Minha integridade, antes meu escudo, era agora minha algema.
Na manhã seguinte, o mundo digital explodiu. As manchetes gritavam: "Elisa Ferraz, a Porta-Voz da Verdade, Exposta como Fraude!" Meus seguidores online, antes minha maior força, se transformaram em uma multidão, cada comentário uma nova ferida. Minha imagem cuidadosamente construída se desfez em pó.
Tranquei-me em meu escritório no *A Verdade*, o lugar que construí do zero. Meu co-fundador, um homem em quem eu confiava implicitamente, estava parado à minha frente, seu rosto uma mistura de choque e fúria. "Elisa, o que está acontecendo? Isso não é do seu feitio."
"Não posso explicar agora," eu disse, uma mentira que odiava. Não podia contar a ele sobre a chantagem de Bruno, sobre o segredo que guardei por amor. Só pioraria as coisas.
Ele balançou a cabeça, sua decepção um peso esmagador. "O conselho está convocando uma reunião de emergência. Eles querem respostas. Eles querem sangue."
Senti então, o isolamento completo e absoluto. Meu marido não apenas me destruiu, mas também se certificou de que eu não tivesse mais ninguém para lutar por mim. Ele havia orquestrado isso perfeitamente.
Mais tarde naquele dia, a retratação oficial foi publicada. Era um texto humilhante e autoincriminador, admitindo ter fabricado uma fonte em uma investigação passada. A internet, já inflamada, explodiu em um frenesi. Pedidos pela minha renúncia, para que o *A Verdade* fosse fechado, inundaram todas as plataformas.
Observei os números na minha tela, a queda das ações, a diminuição do número de leitores. Era uma crucificação digital. O império que construí estava desmoronando, e eu fui forçada a assistir, impotente. Minhas mãos, antes precisas e firmes, agora tremiam incontrolavelmente.
Bruno ligou naquela noite. Sua voz era calma, quase solícita. "Elisa, você está bem? Eu vi as notícias."
"Você viu as notícias?" eu lati, um som cru e gutural. "Você fez as notícias! Você me destruiu!"
"Eu fiz o que tinha que fazer," ele disse, seu tom plano. "A Bia merecia proteção. E você, Elisa, você entende o custo da verdade, não é?"
A audácia, a lógica distorcida, fez meu estômago revirar. "O custo da verdade? Você quer dizer o custo da sua verdade, aquela que te serve."
Ele suspirou, um som teatral. "Não seja dramática. Isso vai passar. Apenas fique na sua por um tempo."
"Ficar na minha?" eu zombei. "Minha vida acabou, Bruno. Minha carreira, minha reputação. Acabou. E você fez isso."
"Eu sou seu marido, Elisa. Eu vou cuidar de você." As palavras, que deveriam ser reconfortantes, pareceram uma jaula se fechando ao meu redor.
"Não," eu disse, uma clareza súbita me invadindo. "Você não é meu marido. Não mais." Desliguei antes que ele pudesse responder.
Arrumei uma pequena mala, jogando alguns itens essenciais. Não podia ficar naquela cobertura, naquela cidade, onde cada esquina parecia um lembrete da minha queda espetacular. Chamei um serviço de carro discreto, sentindo-me como uma fugitiva.
Enquanto o carro se afastava, o frenesi da mídia do lado de fora do meu prédio era um borrão de luzes piscando e vozes gritando. Eles se lançaram sobre o carro, câmeras clicando, exigindo respostas. O motorista acelerou, mas o solavanco foi violento.
Uma dor aguda e lancinante atravessou meu abdômen. Eu arquejei, agarrando meu estômago. Parecia que algo estava se rasgando dentro de mim. Dobrei-me, um suor frio brotando na minha testa.
"A senhora está bem?" o motorista perguntou, olhando no retrovisor.
"Apenas... dirija," sussurrei, a dor se intensificando. Então, um jorro nauseante. Um líquido quente e viscoso manchou meu vestido. Meus olhos se arregalaram de horror.
Não. Agora não. Desse jeito não.
Tínhamos conversado sobre começar uma família, Bruno e eu. Eu tinha parado de tomar pílula recentemente, uma esperança secreta florescendo em meu coração. Era possível? Eu estava grávida?
O pensamento, meio formado, foi impiedosamente esmagado por outra onda de dor, mais aguda, mais insistente. Tateei em busca do meu celular, meus dedos escorregadios de suor. Eu precisava do Bruno. Mesmo agora, neste momento de incerteza aterrorizante, ele era o único em quem eu conseguia pensar. O velho reflexo, profundamente enraizado. Liguei para ele, minha voz um apelo desesperado no silêncio do carro em aceleração. Por favor, atenda. Por favor.
A ligação conectou. A risadinha suave de uma mulher ecoou pela linha. Então a voz de Bruno, baixa e íntima. "Bia, meu amor, você está confortável?"
Meu mundo se partiu. A dor no meu corpo não era nada comparada ao gelo em minhas veias. Meu marido, com sua estagiária, enquanto eu estava sangrando, sozinha, possivelmente perdendo nosso filho. Desliguei. O celular escorregou dos meus dedos dormentes, caindo no chão.
A força G me empurrou contra o assento enquanto o carro desviava violentamente. Um caminhão, faróis ofuscantes, vinha em nossa direção. O motorista gritou. Um barulho ensurdecedor de metal se contorcendo.
Meu último pensamento foi em Bruno, em sua traição, na carícia suave de sua voz para outra mulher. A escuridão me consumiu.
Acordei com luzes ofuscantes e o cheiro de antisséptico. Minha cabeça latejava. Meu corpo doía. Uma médica estava sobre mim, seu rosto sério.
"Você sofreu um acidente, Sra. Ferraz," ela disse gentilmente. "Você perdeu muito sangue. E..." Sua pausa se estendeu, pesada de significado não dito. "Nós sentimos muito. Você sofreu um aborto espontâneo."
As palavras me atingiram como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Um aborto espontâneo. Meu bebê. Nosso bebê. Perdido. Destruído por sua traição, pelos paparazzi que ele soltou em cima de mim. Foi tudo culpa dele. Meu corpo parecia vazio, oco. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes, pela vida perdida, pelo amor traído, pela mulher que eu já fui.
"Também encontramos vestígios de um sedativo em seu sistema," a médica acrescentou, suas sobrancelhas franzidas. "É incomum para alguém envolvido em um acidente de carro. Você tomou alguma coisa?"
Um sedativo? Minha mente girou. Alguém tinha me dado algo? Esse acidente, esse aborto, tudo fazia parte do plano dele? Minha cabeça girava, tentando juntar os fragmentos de memória. A última coisa que eu lembrava eram as luzes piscando, a dor e a voz de Bruno, íntima com Bia. A traição era uma ferida purulenta, mais profunda que qualquer lesão física. Fechei os olhos, o mundo uma sinfonia de dor e desilusão. Com que tipo de monstro eu tinha me casado?





