O sorriso que Diana deu a Marcos naquela noite não foi por simpatia. Foi defesa.
Ela aprendera cedo que o perigo nem sempre vinha de estranhos. Às vezes, usava gravata, tinha sobrenome e jantava com você à mesa.
Depois da festa, ao deitar no quarto escuro da mansão dos pais, no Paraíso, ela não conseguia dormir. A imagem de Marcos voltava à mente. Algo nele parecia honesto - e isso a assustava mais do que atraía.
Ela se levantou e foi até o escritório do pai. Caminhou até a estante antiga, de onde tirou uma caixa de madeira escondida atrás de livros jurídicos. Dentro, recortes de jornal amarelados, fotos de infância... e uma pulseira de couro que ainda guardava o cheiro de terra molhada.
- Gustavo... - sussurrou.
Seu irmão desaparecera em 2006, aos 17 anos. Um desaparecimento que ninguém mais mencionava. A polícia arquivou. Os pais silenciaram. Mas ela nunca esqueceu. Nunca deixou de desconfiar.
Na última vez que o viu, Gustavo saiu à noite para encontrar "um amigo do pai", como dissera. Nunca mais voltou. E tudo que restou dele foi aquela pulseira - que, por coincidência (ou não), Marcos também usava uma parecida no pulso direito.
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Na semana seguinte à festa, Marcos não conseguiu parar de pensar em Diana.
Havia algo inquietante nela. Não só beleza - isso ele já tinha visto em muitas outras - mas um tipo de dor quieta que ele reconhecia. E que, estranhamente, o atraía.
Decidiu ligar. Ela atendeu com voz baixa, como se estivesse num ambiente onde não podia ser ouvida. Aceitou um café, mas sugeriu que ele a buscasse em frente ao prédio, "sem buzinar".
Enquanto dirigia para lá, lembrou-se do pai.
Carlos Rocha não gostava que o filho ficasse fuçando o passado da família. Anos atrás, quando Marcos fazia perguntas sobre um antigo parceiro que "sumiu do mapa", o pai apenas mudava de assunto. Só que agora, o nome daquele empresário voltava à memória: Eduardo Lisboa.
O mesmo sobrenome de Diana.
Quando Diana entrou no carro, seu perfume misturou-se ao cheiro de couro do banco. Ele sorriu.
- Pronta?
Ela respondeu com um aceno. E, por um segundo, ele teve a estranha sensação de que aquela mulher não era apenas um encontro casual. Ela era uma chave.
E ele, talvez, fosse a porta errada.
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