Ponto de vista de Marcos
O portão de ferro rangia como se guardasse segredos há décadas. A casa de Diana, no bairro Paraíso, era um sobrado antigo, daqueles com janelas de madeira, vitrais no hall e cheiro de cera no chão.
Ao entrar, Marcos sentiu o peso do silêncio. Não havia fotos nas paredes, apenas quadros de paisagens frias, montanhas encobertas de neblina, rios sem pessoas.
- Meus pais não gostam de memórias - disse Diana, notando o olhar dele.
Marcos sorriu com leveza, tentando disfarçar o arrepio. Na sala, um quadro acima da lareira o fez parar. Era uma pintura abstrata em tons escuros, com uma assinatura no canto inferior direito: G. Soares.
- Quem pintou? - perguntou.
- Meu irmão. Antes de... sumir.
Marcos gelou. Gustavo Soares. O nome bateu como um sino na cabeça dele. Lembrou-se de uma conversa antiga, fragmentada, entre seu pai e um homem que mencionava "aquele garoto metido a artista... que sabia demais".
Ele se virou para Diana. Ela o observava, mas não dizia nada. Só apertava a própria pulseira de couro - idêntica à que ele também usava, herança do pai.
Ali, pela primeira vez, Marcos entendeu que aquela visita era mais do que um encontro com uma garota. Era o começo de algo que talvez não pudesse parar.
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Ponto de vista de Diana
Ela observava Marcos com atenção. Cada passo, cada olhar ao redor da casa. Ele não fingia surpresa. Parecia verdadeiramente incomodado - como quem reconhece algo que não queria encontrar.
Quando parou diante do quadro, ela teve certeza: ele sabia de alguma coisa.
Não era só mais um garoto curioso. Não era só sobre química ou atração. Era sobre laços invisíveis. Sobre o passado que sempre volta, mesmo quando enterrado.
Diana se aproximou dele devagar.
- Você está bem?
Ele hesitou.
- Estou... é só que essa casa parece guardar histórias demais.
Ela sorriu de canto.
- A maioria delas ninguém quer contar.
Marcos assentiu, mas desviou o olhar. Diana percebeu: ele estava mentindo. Ainda não sabia o quê, mas sabia que ele não veio até ali apenas por ela.
E, mesmo assim, algo nela queria que ele ficasse.
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