Eu encarei a mancha carmesim, minha mente uma tela em branco subitamente salpicada de horror. Minhas mãos, ainda trêmulas, agarravam o tecido, tentando futilmente estancar o fluxo. A torta, antes um símbolo do nosso futuro compartilhado, agora estava sobre a mesa, fria e intocada, um monumento a um amor que nunca existiu de verdade. Anos de autonegação, anos colocando os sonhos de Caio antes dos meus, anos acreditando em um futuro que nunca foi para mim — tudo desmoronou naquele único e horrível momento.
Lembrei-me dos primeiros dias, quando conheci Caio na faculdade. Ele era um turbilhão de ambição e talento bruto, mal conseguindo se virar. Eu investi cada centavo das minhas economias, herdadas da minha avó, em sua startup de tecnologia iniciante. Coloquei minha própria carreira de design em espera, desenhando logotipos e interfaces de usuário para a empresa dele, trabalhando até tarde da noite, movida a café barato e à crença inebriante de que estávamos construindo algo juntos. Eu era sua confidente, sua torcedora, sua diretora de criação não remunerada. Eu era sua parceira. Ou assim eu pensava.
Agora, tudo o que eu sentia era um vazio ardente, um oco que engolia a dor, a raiva, a traição. Era um vácuo, frio e absoluto. Eu fui uma tola, uma participante voluntária do meu próprio coração partido. Eu dei tudo, minha identidade, meus sonhos, meu próprio valor, a um homem que me via como descartável.
O sangue ainda escorria, um ritmo constante e horripilante. Eu sabia, com uma certeza arrepiante, que a vida que eu esperava nutrir dentro de mim, a pequena chama do nosso futuro, estava sendo extinta por seu descaso cruel.
Eu me levantei, cada movimento uma nova agonia, meu corpo gritando em protesto. Minha visão estava turva, mas um pensamento único e claro cortou a névoa: eu tinha que ir embora. Não apenas da cobertura, não apenas de Campos do Jordão, mas dele. Para sempre.
Arrastei-me até a rodoviária, minhas roupas ainda manchadas, um casaco fino fazendo pouco para afastar o frio cortante de Campos. A senhora idosa atrás do balcão, seu rosto um mapa de rugas, semicerrou os olhos para mim.
"Helena? É você, querida? Nossa, como você cresceu." Ela fez uma pausa, seus olhos se suavizando. "Mas você parece... doente. Foi o Caio que te mandou?"
Minha garganta se fechou. Eu apenas balancei a cabeça, empurrando um maço amassado de dinheiro pelo balcão. "Uma passagem. Para o mais longe que isso puder me levar. São Paulo, se possível."
Ela pegou as notas, seu olhar demorando em meu rosto pálido. "São Paulo, hein? É um longo caminho daqui. O Caio costumava vir aqui o tempo todo, sabe. Na época em que vocês dois estavam apenas começando. Ele comprava uma passagem para você, depois cancelava no último minuto, só para poder te surpreender, te levar de carro para onde você quisesse ir." Um sorriso nostálgico tocou seus lábios. "Ele era tão apaixonado, aquele rapaz. Uma vez, ele não tinha o suficiente para uma passagem para te levar para casa no Natal. Ele passou três dias fazendo bicos na cidade, só para conseguir o dinheiro. Suas mãos estavam em carne viva, mas ele continuava sorrindo, falando sobre como você ficaria feliz."
Suas palavras eram um eco cruel de um passado que parecia uma vida inteira atrás. Eu me lembrava daquele Natal. Ele apareceu na minha porta, com o rosto queimado pelo frio e exausto, segurando uma única rosa vermelha. Ele disse: "Eu te disse que sempre te levaria onde você precisasse ir, Helena. Não importa o quê."
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e ardentes contra o ar frio. A memória, antes doce, agora parecia veneno. Aquele rapaz, aquele que fazia bicos pela minha felicidade, se foi, substituído pelo estranho insensível que jogou dinheiro em mim e me mandou embora.
A atendente estalou a língua suavemente. "Ele me disse uma vez: 'A Helena é a única que me vê, o verdadeiro eu. Se eu a perder, perco tudo.'" Ela balançou a cabeça. "Engraçado como as coisas mudam, não é?"
Eu apenas assenti, incapaz de falar. A dor no meu abdômen era uma pontada surda, um lembrete constante da vida que se esvaía. A passagem de ônibus parecia uma pedra pesada na minha mão, uma ruptura física de todos os laços. Era uma lâmina, afiada e limpa, me libertando.
"Sabe," disse a atendente, sua voz baixando, "esse relógio caro no seu pulso? Parece que custa mais do que esta estação inteira. Não deixe ninguém te dizer o seu valor, querida. Você vale mais do que qualquer homem que não consegue ver o bem que tem na sua frente."
Olhei para o relógio cravejado de diamantes que Caio me dera no meu último aniversário, um símbolo de sua recém-adquirida riqueza, mas oco, sem sentido. Amassei a passagem de ônibus na mão, as bordas afiadas cravando na minha palma.
Assim que a atendente me deu o troco, a porta se abriu com um estrondo. Caio estava lá, o cabelo desgrenhado, a respiração ofegante. Seus olhos, geralmente tão calculistas, estavam arregalados com um desespero frenético.
"Helena! Não vá!" Ele se lançou para frente, me agarrando, me puxando para um abraço esmagador. Seu cheiro — colônia cara, um toque de desespero — encheu minhas narinas. "Por favor, não me deixe. Eu sei que errei. Juro, vou consertar."
Ele arrancou a passagem de ônibus amassada da minha mão, rasgando-a em pedacinhos. Ele segurou meu rosto, seus polegares traçando as trilhas de lágrimas em minhas bochechas. "Eu nunca vou te deixar ir. Nunca."
Ele me arrastou para fora, quase tropeçando, em direção ao seu elegante carro preto. Meus pés mal tocavam o chão. Eu estava em silêncio, entorpecida. Lá dentro, um cachecol de caxemira estava jogado sobre o banco do passageiro, e o cheiro fraco e doce do perfume de Carmen impregnava o couro. Um único brinco esquecido brilhava no tapete.
Fechei os olhos, uma lágrima silenciosa escapando. Meu corpo doía, uma dor profunda e persistente que ecoava o vazio interior. Caio, alheio, tagarelava, sua voz grossa com o que parecia ser um arrependimento genuíno.
"Eu liguei para a Carmen. Disse a ela que não podia ir, não hoje à noite. Nunca mais. Ela entendeu. Eu disse a ela... disse a ela que precisa encontrar seu próprio caminho. Que você é o meu mundo, Helena. Sempre foi." Ele fez uma pausa, estendendo a mão para apertar a minha. "Vamos começar de novo. Do zero. Eu prometo. Sem mais distrações. Só nós. O que você me diz?"
Eu apenas soltei um suspiro suave e derrotado. Meus olhos estavam secos demais para mais lágrimas, meu espírito cansado demais para palavras. Ele não percebeu. Ele apenas continuou dirigindo, falando sobre o futuro deles, um futuro no qual eu não acreditava mais, um futuro que já estava sangrando dentro de mim.





