Renascida das Cinzas: A Vingança de Clara

A festa de aniversário da minha sogra, Helena, estava no auge. A casa, em Lisboa, estava cheia de risos e do som de copos a tilintar. Eu sorria, sentada num sofá um pouco afastado, com a mão a proteger a minha barriga de sete meses.

O meu marido, Miguel, estava no centro da sala, a contar uma história que fazia todos rir. A sua irmã, Sofia, estava agarrada ao seu braço, a rir mais alto que todos. Ela sempre foi assim, o centro do universo dele.

Helena aproximou-se de mim, com um sorriso que não chegava aos olhos.

"Clara, querida, não estás a beber? Ah, claro. O bebé."

Ela disse a palavra "bebé" como se fosse uma doença.

"Estou bem, Helena. Apenas a descansar um pouco."

"Claro. O Miguel está a divertir-se tanto. Ele precisa disto. Tem andado tão stressado contigo."

As suas palavras eram pequenas farpas, mas eu já estava habituada. Para a família dele, eu era a intrusa que lhe roubou o filho e irmão perfeito.

De repente, um cheiro acre encheu o ar. Fumo.

Alguém gritou da cozinha.

"Fogo!"

O pânico instalou-se instantaneamente. A música parou. Os risos transformaram-se em gritos. As pessoas começaram a correr para a porta da frente.

Levantei-me, o coração a bater descontroladamente. Procurei o Miguel no meio da confusão. Vi-o, os olhos arregalados de pânico. O nosso olhar cruzou-se.

"Miguel!" gritei.

Ele começou a correr na minha direção, mas depois a voz de Sofia soou, aguda e desesperada, vinda do corredor do andar de cima.

"Miguel! Ajuda-me! Estou presa!"

Ele parou. Olhou para mim, depois para as escadas onde o fumo já descia em nuvens densas e escuras. O seu rosto era uma máscara de indecisão torturante.

"Eu estou aqui, Miguel! O fumo está a ficar mais denso!" A minha voz era um apelo desesperado. Eu estava grávida do filho dele.

Mas ele olhou para as escadas uma última vez e depois para mim.

"A Sofia tem asma. Ela não sobrevive a isto. Fica aqui, não te mexas!"

E com isso, ele virou-se e correu escadas acima, desaparecendo no fumo para salvar a irmã.

Fiquei ali, paralisada. O fumo queimava-me os pulmões. A sala estava a ficar vazia, exceto por mim. Ele escolheu-a. No momento mais crucial da nossa vida, ele não me escolheu a mim. Nem ao nosso filho.

A minha visão começou a ficar turva. A última coisa que ouvi antes de desmaiar foi o som distante das sirenes dos bombeiros.

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