Renascida das Cinzas: A Vingança de Clara

Acordei com o som de um bip constante e um cheiro a antissético. As paredes eram brancas. Hospital.

Uma enfermeira estava a ajustar o soro no meu braço. Ela sorriu-me com simpatia.

"A menina acordou. Como se sente?"

A minha primeira ação foi levar a mão à minha barriga. Estava... mais pequena. Menos firme. O pânico subiu pela minha garganta.

"O meu bebé... Onde está o meu bebé?"

O rosto da enfermeira ficou sério. Ela desviou o olhar.

"O médico virá falar consigo em breve. Tente descansar."

Mas eu já sabia. O silêncio dela era a resposta mais alta de todas. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes. Perdi-o. O meu filho.

Miguel entrou no quarto nesse momento. Tinha o rosto sujo de fuligem e os olhos vermelhos. Ele correu para o meu lado.

"Clara! Graças a Deus, estás bem. Eu estava tão preocupado."

Ele tentou pegar na minha mão, mas eu afastei-a.

"Onde está o nosso filho, Miguel?" A minha voz era fria, sem emoção.

Ele baixou a cabeça.

"Os médicos disseram... a inalação de fumo... o stress... provocou o parto. Era demasiado cedo. Ele não... ele não sobreviveu."

As palavras dele pairaram no ar, pesadas e horríveis. Fiquei a olhar para o teto branco, sentindo um vazio tão grande dentro de mim que parecia que ia engolir o mundo inteiro.

"A Sofia está bem?" perguntei, a voz ainda sem inflexão.

Ele pareceu surpreendido com a pergunta.

"Sim, sim, ela está bem. Só um pouco assustada e inalou um pouco de fumo. A minha mãe está com ela noutro quarto. Ela estava em pânico, coitada."

Coitada. Ele estava a consolar a irmã por um susto, enquanto o nosso filho estava morto.

"Quero o divórcio, Miguel."

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar nelas. Mas assim que as disse, soube que eram a única verdade que me restava.

Miguel olhou para mim, chocado.

"O quê? Clara, não digas isso. Estás em choque. Nós acabámos de perder o nosso filho. Precisamos um do outro agora."

"Não," eu disse, virando o rosto para ele pela primeira vez. Os meus olhos estavam secos agora. "Eu precisei de ti na festa. O nosso filho precisou de ti. E tu escolheste a Sofia."

"Não é justo! Ela tem asma! Ela podia ter morrido!"

"E eu? Grávida de sete meses? Eu não podia morrer? O nosso filho não importava?"

"Claro que importava! Eu pensei que tinha mais tempo! Pensei que te podia tirar de lá a seguir!"

As suas desculpas eram como areia na minha boca. Vazias. Sem sentido.

"Sai."

"Clara..."

"Eu disse para saíres do meu quarto. Agora."

Ele ficou a olhar para mim por mais um momento, o rosto uma mistura de dor e confusão. Depois, virou-se e saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.

Sozinha no silêncio, o meu corpo começou a tremer. O vazio deu lugar a uma dor que me partiu ao meio. O meu bebé. O meu menino. Tinha desaparecido para sempre. E o homem que jurou proteger-nos tinha sido o primeiro a abandonar-nos.

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