Renascida das Águas

A primeira coisa que fiz ao acordar do coma foi pedir o meu telemóvel.

A enfermeira hesitou, mas eu insisti.

O meu corpo doía por todo o lado, e a minha cabeça latejava com uma dor surda.

O ecrã do telemóvel iluminou-se, mostrando a data. Eu tinha estado em coma por três dias.

Três dias.

Durante a tempestade mais forte do século, eu fiquei presa num túnel inundado.

Tentei ligar para o meu marido, Diogo, inúmeras vezes.

Ele nunca atendeu.

Agora, o meu histórico de chamadas estava limpo, apagado por alguém. Mas a memória estava gravada na minha mente.

Havia dezenas de mensagens não lidas. A maioria era de amigos e familiares distantes, a perguntar se eu estava bem.

Nenhuma era do Diogo.

Em vez disso, vi uma transferência bancária dele. 50.000 euros.

A mensagem que a acompanhava era curta.

"Sofia, desculpa. A Clara precisava mais de mim. Usa este dinheiro para a tua recuperação."

Clara. A minha meia-irmã.

A mulher que a minha mãe sempre me disse para tratar bem, porque a vida dela era difícil.

Senti uma vontade súbita de rir.

A minha mãe entrou no quarto nesse momento, com os olhos vermelhos e inchados.

"Sofia, finalmente acordaste! Estava tão preocupada."

Ela tentou abraçar-me, mas eu afastei-me. O movimento fez o meu corpo inteiro protestar de dor.

"Onde está o Diogo?" perguntei, a minha voz rouca e fraca.

A minha mãe desviou o olhar.

"Ele... ele esteve muito ocupado. A Clara... ela caiu e partiu uma perna durante a tempestade. E o cão dela, o Trovão, ficou muito doente. O Diogo esteve a cuidar deles."

"Ocupado," repeti, a palavra soando vazia. "Então ele não teve tempo para atender as chamadas da sua mulher que estava a morrer?"

"Não fales assim, Sofia!" A voz da minha mãe subiu de tom. "A Clara estava em pânico. Ela estava sozinha! Tu sabes como ela é frágil."

Eu olhei para ela. Para a minha própria mãe, a defender o homem que me deixou para morrer.

"E eu? Eu não estava sozinha? Eu não estava em pânico?"

"Os socorristas salvaram-te, não foi? Estás viva," disse ela, como se isso resolvesse tudo.

"Sim. Estou viva," concordei, um frio a espalhar-se pelo meu peito. "Sem bebé."

A cara da minha mãe desfez-se. "Sofia, o médico disse... com o choque e a falta de oxigénio... o bebé..."

Eu já sabia. Eu sentia o vazio dentro de mim. O vazio que antes estava cheio de esperança.

"Eu quero o divórcio," disse eu, com uma clareza que me surpreendeu.

A minha mãe ficou chocada.

"Divórcio? Estás louca? Por causa disto? O Diogo ama-te! Ele só cometeu um erro!"

"Um erro?" A minha voz tremeu. "Ele escolheu. Ele escolheu a perna partida da Clara e o cão doente dela em vez da minha vida e da vida do nosso filho."

"Não sejas tão dramática! Ele não sabia que a situação era tão grave!"

"Eu liguei-lhe dezoito vezes, mãe. Dezoito. Ele desligou-me na cara. Disse-me para esperar pelos socorristas. Ele sabia."

O silêncio no quarto era pesado.

O meu telemóvel vibrou. Era uma notificação do Instagram.

Uma foto publicada pela Clara.

Ela estava sentada numa cadeira de rodas, com a perna engessada. O Diogo estava ajoelhado à sua frente, a dar comida ao cão dela, o Trovão, com uma colher.

A legenda dizia: "O meu herói. Salvou-me a mim e ao Trovão. Não sei o que faria sem ti, Diogo. ❤️"

Mostrei o telemóvel à minha mãe.

Ela olhou para a foto, e depois para mim, sem palavras.

Fechei os olhos.

"Sai," sussurrei. "Por favor, sai."

Ela não se mexeu, então eu repeti, mais alto.

"SAI!"

A minha mãe recuou, assustada, e saiu do quarto a tropeçar.

Fiquei sozinha com o som da minha própria respiração.

O divórcio não era uma questão. Era uma certeza.

A única coisa que me ligava ao Diogo tinha desaparecido. Agora, só restava o nojo.

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