Renascida das Águas

Dois dias depois, recebi alta.

A minha mãe insistiu em levar-me para casa dela. Eu recusei.

"Vou para o meu apartamento," disse eu, a minha voz firme.

"Mas Sofia, precisas de alguém para cuidar de ti," protestou ela.

"Eu sei cuidar de mim mesma."

O apartamento que eu partilhava com o Diogo parecia estranho e frio.

As suas coisas ainda estavam por todo o lado. Uma camisa no encosto de uma cadeira, os seus sapatos à porta.

Senti um aperto no estômago.

Peguei em sacos do lixo grandes e comecei a trabalhar.

Metodicamente, juntei cada item que lhe pertencia. Roupas, livros, a sua caneca de café preferida, fotografias.

Não hesitei. Não senti nada. Era como se estivesse a limpar a casa de um estranho.

Quando terminei, havia cinco sacos de lixo cheios à porta.

Liguei-lhe.

Desta vez, ele atendeu ao segundo toque.

"Sofia? Estás bem? A tua mãe disse-me que recebeste alta." A sua voz soava preocupada. Uma preocupação tardia e inútil.

"Vem buscar as tuas coisas," disse eu, sem rodeios.

Houve uma pausa. "As minhas coisas? O que queres dizer?"

"Estão em sacos à porta. Tens uma hora para as vir buscar. Depois disso, vão para o lixo."

"Sofia, espera aí! O que se passa? Podemos falar sobre isto?"

"Não há nada para falar, Diogo. Eu já enviei os papéis do divórcio para o teu advogado."

"Divórcio?!" ele gritou ao telefone. "Estás a falar a sério? Por causa de um mal-entendido? Eu estava a ajudar a Clara! Ela é tua irmã!"

"Ela não é minha irmã," corrigi-o friamente. "E tu fizeste uma escolha. Agora vive com ela."

"Tu não podes fazer isto! E o nosso bebé?"

A menção ao bebé fez o meu sangue gelar.

"Não te atrevas a falar do nosso bebé," sibilei. "Tu não tens esse direito."

"Sofia, eu amo-te! Não deites o nosso casamento fora!"

"O nosso casamento acabou no dia em que me deixaste morrer naquele túnel."

Desliguei a chamada e bloqueei o número dele.

Sentei-me no chão da sala agora vazia. O silêncio era ensurdecedor.

Olhei para as minhas mãos. Elas tremiam.

Não era de tristeza. Era de raiva.

Uma raiva fria e profunda que me consumia.

Ele achava que podia simplesmente pedir desculpa e tudo voltaria ao normal.

Ele achava que o seu "amor" era suficiente para apagar a sua traição.

Ele estava enganado.

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