O casamento de sete anos foi uma piada completa, uma farsa dolorosa que eu insisti em manter.
A traição dele não era um segredo, mas eu continuei a suportar, dia após dia, engolindo a humilhação.
Até hoje.
Eu estava grávida de cinco meses, segurando o volante com as mãos trêmulas, as lágrimas embaçando minha visão. No banco do passageiro, minha avó segurava minha mão, tentando me acalmar com sua voz frágil.
"Laura, querida, olhe para a estrada. Não vale a pena se destruir por um homem que não te merece."
Eu mal conseguia ouvir suas palavras, o som do meu coração partido era mais alto que qualquer coisa. Eu tinha acabado de receber uma mensagem, uma foto de Heitor com outra mulher, os dois sorrindo, íntimos demais.
Foi nesse momento de distração, de dor pura, que as luzes de um caminhão surgiram do nada, ofuscantes.
O som do metal se contorcendo e do vidro quebrando foi a última coisa que ouvi antes de tudo ficar escuro.
Quando acordei, o cheiro de antisséptico invadiu minhas narinas. O quarto do hospital era branco e frio.
Heitor não estava lá.
Uma enfermeira entrou, seu rosto expressava uma pena que eu não queria ver. Ela me disse tudo de uma vez, sem rodeios.
Minha avó não resistiu.
Meu filho, o bebê que eu carregava, também se foi.
Eu perdi tudo. Em um único instante, perdi as duas pessoas que mais amava neste mundo.
O mundo parecia ter parado de girar, um silêncio pesado preencheu o quarto, preencheu minha alma. Eu não chorei, não gritei, apenas fiquei ali, olhando para o teto branco, sentindo um vazio absoluto.
Finalmente, juntei forças para pegar o telefone e ligar para Heitor. Eu precisava ouvir a voz dele, talvez para sentir um último pingo de raiva antes de deixar tudo ir embora.
O telefone tocou várias vezes antes que ele atendesse, a voz impaciente e irritada.
"O que foi agora, Laura? Estou no meio de uma reunião importante. Não pode esperar?"
Sua voz era fria, distante, como se eu fosse apenas um incômodo.
"Heitor," minha voz saiu como um sussurro rouco, sem vida. "Vovó se foi."
Houve um silêncio do outro lado da linha, mas não foi um silêncio de choque ou tristeza, foi um silêncio de quem calcula o que dizer.
"Eu sinto muito," ele disse, as palavras vazias, ensaiadas. "Vou mandar a secretária cuidar de tudo. Tenho que desligar agora."
Ele não perguntou como eu estava, não perguntou sobre o acidente, não perguntou sobre o nosso filho.
"Heitor," eu o chamei de novo, antes que ele pudesse desligar. "O bebê... nós o perdemos."
Desta vez, o silêncio durou um pouco mais. Eu quase pude ouvi-lo pensando, processando a informação, não como uma perda, mas como a solução de um problema.
"Entendo," ele disse por fim, a voz ainda mais fria. "Talvez seja melhor assim. Você sabe que eu nunca quis essa criança."
Meu coração, que eu pensei já estar em pedaços, se partiu mais uma vez.
"Acabou, Heitor," eu disse, com uma calma que me assustou. "O nosso contrato de casamento está encerrado. Quero o divórcio."
Desliguei o telefone antes que ele pudesse responder. Não havia mais nada a ser dito.
Deitei a cabeça no travesseiro, o corpo doendo, a alma anestesiada. Eu não sentia tristeza, não sentia raiva, não sentia nada. Era como se a dor fosse tão imensa que meu corpo simplesmente se recusou a senti-la.
Algumas horas depois, meu celular vibrou. Era uma mensagem de uma amiga, uma daquelas que sempre tentou me alertar sobre Heitor.
A mensagem continha uma foto.
Heitor e sua amante, a socialite Jéssica, estavam em uma joalheria. Ele colocava um colar de diamantes no pescoço dela, seus lábios quase tocando os dela. A data e a hora na foto mostravam que foi tirada enquanto eu estava na sala de cirurgia, perdendo nosso filho.
Na legenda, minha amiga escreveu: "Ele comprou para ela o colar 'Coração do Oceano'. Sinto muito, Laura."
Eu olhei para a foto, para o sorriso radiante de Jéssica e para a adoração no rosto de Heitor, e pela primeira vez, um sorriso amargo tocou meus lábios.
Tudo fazia sentido agora.
Naquele momento, o telefone do quarto tocou. Era o avô de Heitor, Seu Afonso, o patriarca da família Horta. Um homem severo, mas justo.
"Laura, minha querida, acabei de saber do acidente. Como você está? Heitor me disse que..."
Eu o interrompi, minha voz ainda calma, mas com um fio de aço.
"Seu Afonso, eu estou bem. Mas preciso que o senhor veja uma coisa."
Enviei a foto para ele. O silêncio que se seguiu do outro lado da linha foi longo e pesado. Eu podia imaginar o rosto do velho homem se fechando em uma máscara de fúria e decepção.
"Aquele moleque...", ele murmurou, a voz cheia de raiva contida. "Laura, eu sinto muito. Eu vou resolver isso."
A ligação terminou. Eu fechei os olhos, exausta. A batalha estava apenas começando, mas pela primeira vez em sete anos, eu não sentia medo. Eu não tinha mais nada a perder.





