Isidora estava sentada no banco de trás da Lincoln Navigator estacionada em frente ao hotel The Pierre.
Ela se olhava no espelho do quebra-sol. Seus dedos estavam dormentes enquanto aplicava a terceira camada de base escura e empastada em suas bochechas.
Ela colou as sardas falsas de volta no nariz. Enfiou os óculos pesados de armação preta no rosto.
A mulher de tirar o fôlego do quarto de hotel havia desaparecido. A herdeira Wyatt, feia e patética, estava de volta.
Ela puxou para cima a gola de seu vestido de estilo vitoriano. O tecido arranhava sua pele, mas era necessário para esconder os chupões escuros e violentos que o estranho havia feito em seu pescoço na noite anterior.
Isidora abriu a porta do carro e pisou no tapete vermelho.
Flashes de câmeras explodiram em seu rosto. Pelo canto do olho, ela viu um grupo de socialites apontando para ela.
"Olha para ela", uma delas sussurrou alto. "Ela parece uma freira mofada. Como o Kevin Garrison vai se casar com *isso*?"
Isidora manteve a cabeça baixa. Deixou que os insultos ricocheteassem em sua armadura. Ela entrou no grande salão de baile, com os olhos fixos no chão de mármore.
Seu pai, Arsenio Wyatt, marchou até ela. Ele não disse olá. Agarrou seu braço, os dedos cravando em sua carne.
"Mantenha a boca fechada esta noite", Arsenio sibilou em seu ouvido. "Se você arruinar esta fusão de fundos fiduciários com os Garrisons, eu farei você se arrepender de ter nascido."
Isidora assentiu lentamente, soltando o braço.
Ela varreu o salão com o olhar, procurando por Kevin. Precisava saber se ele teria a coragem de trazer Chantelle para o jantar oficial de noivado deles.
De repente, a conversa alta no salão de baile cessou. A orquestra ao vivo parou de tocar no meio de uma nota.
Hyman Garrison, o pai de Kevin e atual presidente, estava praticamente correndo em direção à entrada principal. O suor escorria por sua testa.
Passos pesados e deliberados ecoaram pelo chão de mármore. Cada passo soava como um martelo de juiz batendo na madeira.
A multidão de elites de Wall Street se abriu como o Mar Vermelho. Eles se espremeram contra as mesas, apavorados com a ideia de bloquear o caminho.
Hyman pegou o microfone, suas mãos tremendo visivelmente.
"Senhoras e senhores", Hyman gaguejou. "Por favor, deem as boas-vindas ao verdadeiro chefe da família Garrison, retornando de Los Angeles... Sr. Cedrick Garrison."
O nome enviou uma onda de choque física pela sala. As pessoas ofegaram. Cedrick era o bilionário exilado, o predador implacável de hedge funds que devorava empresas no café da manhã.
Isidora levantou lentamente a cabeça. Empurrou seus óculos feios para cima na ponte do nariz e olhou em direção à entrada.
No momento em que seus olhos pousaram no homem cercado por guarda-costas, o sangue sumiu de seu rosto.
Seu coração martelou contra suas costelas com tanta força que ela pensou que iriam quebrar.
O maxilar afiado como navalha. Os olhos frios e mortos. A aura de poder aterrorizante e sufocante.
Era ele. O homem do quarto de hotel. O homem para quem ela havia deixado mil dólares na mesa de cabeceira.
Isidora não conseguia respirar. Seus pulmões se recusavam a expandir. Ela deu um passo frenético para trás, tentando se esconder atrás de um arranjo de flores alto.
Seu salto prendeu na barra do vestido de seda de uma socialite.
"Cuidado, sua esquisita!", a mulher gritou, empurrando Isidora com força no peito.
Isidora tropeçou para trás. Seu quadril bateu na quina da mesa da torre de champanhe.
Várias taças de cristal viraram, estilhaçando-se contra o chão de mármore. O som agudo ecoou como um tiro no salão de baile em silêncio mortal.
Cedrick parou de andar.
Sua cabeça virou bruscamente em direção ao canto. Seu olhar frio e predatório se fixou na fonte do barulho.
Isidora imediatamente baixou o queixo até o peito. Deixou seu cabelo bagunçado cair para a frente, rezando para que os óculos grossos e a maquiagem feia funcionassem.
Os olhos de Cedrick percorreram sua roupa desastrosa. Um lampejo de profundo nojo cruzou seu rosto. Ele começou a virar a cabeça.
Mas então, uma corrente de ar vinda das portas abertas do salão de baile varreu a sala.
Carregava um aroma.
As narinas de Cedrick se dilataram. Seu corpo inteiro enrijeceu.
Era um leve traço de íris. Um aroma que, inexplicavelmente, suavizou as arestas de sua insônia crônica por um segundo fugaz. Era uma anomalia que irritava seus instintos hipervigilantes. Por que essa criatura patética e pesadamente maquiada carregaria um aroma que exigia sua atenção?
Cedrick não caminhou em direção à mesa principal. Ele girou nos calcanhares e andou direto para o canto escuro.
A multidão prendeu a respiração. Os dedos de Isidora se cravaram no tecido de sua saia. Suas palmas estavam suando.
Cedrick parou a menos de meio metro dela. Sua estrutura maciça bloqueava a luz.
Hyman correu até lá, rindo nervosamente. "Cedrick, por favor, desculpe a bagunça. Esta é a noiva de Kevin, Isidora Wyatt."
Os olhos de Cedrick escureceram com a palavra "noiva".
Ele olhou para ela, de cima a baixo. Seu olhar se arrastou lentamente das sardas falsas até a gola alta de seu vestido.
Bem na borda da gola, as camadas espessas de corretivo estavam aplicadas de forma irregular, uma tentativa desesperada de esconder sua própria palidez natural.
Cedrick soltou uma risada baixa e sombria que fez os pelos da nuca de Isidora se arrepiarem.
Ele se inclinou, seus lábios a centímetros do ouvido dela.
"Senhorita Wyatt", Cedrick sussurrou, sua voz carregada de intenção letal. "O perfume que você escolheu tem um cheiro tão bom quanto o da mulher no quarto de hotel ontem à noite."





