Quando o Respeito Morre, o Amor Também

Eu estava a verificar o meu e-mail de trabalho quando a chamada do meu marido, Pedro, chegou. A voz dele estava cheia de pânico.

"Sofia! A avó caiu. Ela bateu com a cabeça. Estamos a caminho do hospital agora!"

O meu coração parou. A avó, com oitenta e cinco anos, era a pessoa mais importante na vida do Pedro.

"Estou a ir para aí," disse eu, já a pegar na minha mala e nas chaves do carro.

"Não, não venhas," ele disse apressadamente. "A Laura já está a caminho. Ela é médica, sabe o que fazer. Fica em casa e espera pelas minhas notícias. Não quero que te preocupes."

A Laura era a ex-namorada do Pedro. Eles tinham terminado há cinco anos, mas ela continuava a ser uma presença constante nas nossas vidas, especialmente na vida da família dele.

Fiquei em silêncio por um momento.

"Pedro, eu sou a tua mulher. A avó também é a minha família. Eu devia estar aí."

"Sofia, por favor," a voz dele soou irritada. "A Laura entende destas coisas. Tu vir só vai atrapalhar. Apenas fica em casa."

Ele desligou antes que eu pudesse responder.

Olhei para o telefone na minha mão. Senti um frio no estômago.

Eu e o Pedro estávamos casados há três anos. Três anos a tentar encaixar-me na família dele, a tentar competir com o fantasma da "Laura perfeita".

Ela era médica, eu era gestora de projetos. A família dele adorava-a, viam-na como a que lhes escapou. A mim, viam-me como a substituta.

Decidi ir de qualquer maneira. A avó gostava de mim. Eu tinha de estar lá por ela.

Quando cheguei ao hospital, vi-os no corredor da emergência. O Pedro, a sua mãe, o seu pai, e a Laura.

A Laura estava a usar o seu jaleco branco, a falar em voz baixa com os pais do Pedro, que acenavam com a cabeça, com os rostos cheios de gratidão. O Pedro estava ao lado dela, com a mão no ombro dela, a olhar para ela com uma admiração que ele nunca me dirigiu.

Ninguém reparou na minha chegada.

Senti-me como uma estranha a espreitar um momento familiar íntimo.

A mãe do Pedro, a Sra. Almeida, finalmente viu-me. A sua expressão calorosa desapareceu.

"Sofia? O que estás a fazer aqui? O Pedro não te disse para ficares em casa?"

A sua voz era alta o suficiente para que todos ouvissem. O Pedro virou-se, o seu rosto uma mistura de surpresa e aborrecimento.

"Eu disse-te para não vires," ele sibilou, caminhando na minha direção.

"Eu estava preocupada," murmurei, sentindo os meus olhos a arder. "Como está a avó?"

"A Laura está a tratar de tudo," ele disse, como se isso explicasse tudo. "Ela já falou com os médicos, ela conhece o protocolo. Está tudo sob controlo."

"Que bom," disse eu, tentando sorrir. "Fico feliz que ela esteja aqui para ajudar."

A Laura aproximou-se, o seu sorriso era simpático, mas os seus olhos eram frios.

"Sofia, olá. Não te preocupes, a avó está estável. Vai precisar de alguns exames, mas eu estou a acompanhar tudo de perto."

Ela colocou a mão no braço do Pedro. "Pedro, o Dr. Marques quer falar connosco. Vamos."

Eles afastaram-se juntos, como uma equipa. Os pais dele seguiram-nos, deixando-me sozinha no corredor.

Sentei-me num dos assentos de plástico desconfortáveis, a observar a minha "família" a funcionar perfeitamente sem mim.

Nesse momento, tomei uma decisão.

Isto tinha de acabar. Eu não podia continuar a viver como uma nota de rodapé na minha própria vida.

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