A noite em que a minha relação de três anos acabou, o céu de Lisboa estava limpo, sem uma única nuvem.
No nosso apartamento de luxo com vista para o Tejo, Diogo beijou-me o pescoço.
"Canta para mim, Sofia. Só para mim."
A sua voz era um sussurro rouco, cheio de um desejo que eu acreditava ser amor. Eu era Sofia, a menina de ouro do Porto, a fadista de uma família rica e tradicional, e estava perdidamente apaixonada por ele.
Peguei na guitarra, os meus dedos encontraram as cordas familiares. Cantei um fado antigo, uma canção de amor e perda, derramando a minha alma apenas para ele.
Ele gravava tudo no seu telemóvel.
"É para quando tiver saudades tuas", disse ele, sorrindo.
Eu sorri de volta, ingénua. Não sabia que a minha voz, a minha intimidade, era apenas mais uma peça na sua coleção. Uma arma que ele planeava usar para destruir a minha família.
Senti um arrepio estranho, uma pontada de dúvida.
"Diogo, porquê gravar sempre?"
Ele parou a gravação e puxou-me para o seu colo, o seu olhar intenso a prender o meu.
"Porque cada som que fazes é música para mim, meu amor. Quero guardar tudo."
As suas palavras doces, como sempre, afastaram as minhas preocupações. Ele era Diogo, o magnata implacável de Lisboa, e eu acreditava que era o seu ponto fraco.
Mais tarde, ele vestiu o seu fato caro.
"Tenho uma festa de negócios em Cascais, não posso faltar. Mas volto rápido."
Ele beijou-me e saiu. Fiquei sozinha no silêncio do apartamento. Sobre a mesa de cabeceira, vi os seus botões de punho de prata, os que lhe ofereci no nosso primeiro aniversário. Ele nunca ia a lado nenhum sem eles.
Um impulso tomou conta de mim. Queria fazer-lhe uma surpresa. Vesti-me rapidamente, chamei um táxi e dei a morada da villa em Cascais, uma que ele me tinha mostrado uma vez, "para quando quisermos fugir de tudo".
Quando cheguei, a música alta e as gargalhadas ecoavam pelo jardim. A porta da frente estava entreaberta. Entrei sem fazer barulho, o coração a bater com a excitação da surpresa.
Segui as vozes até um terraço com vista para o mar. Diogo estava lá, de costas para mim, rodeado pelos seus amigos, os tubarões de Lisboa.
"Três anos", dizia Diogo, a sua voz cheia de triunfo. "Três anos a aturar a fadista ingénua. Mas o fim está próximo."
Um dos amigos riu-se. "O Tiago nem vai saber o que o atingiu."
Tiago. O meu irmão. O rival de Diogo. O "dragão do Porto" que geria o império de vinhos da nossa família. O meu protetor.
O meu sangue gelou.
"E o melhor", continuou Diogo, "são as gravações. Tenho horas dela. A cantar para mim, a dizer que me ama, a sussurrar coisas que fariam o papá e a mamã dela terem um ataque cardíaco. Quando eu divulgar isto, a reputação da família deles vai para o lixo. O império do vinho do Porto vai tremer."
O mundo à minha volta desabou. O ar faltou-me nos pulmões. Cada palavra era uma facada. O amor da minha vida era uma mentira. Uma vingança elaborada.
Tropecei para trás, o som de um vaso a partir-se ecoou no terraço. As vozes calaram-se. Virei-me e corri. Corri como se a minha vida dependesse disso, as lágrimas a cegarem-me.
Escondi-me nos arbustos escuros do jardim, a tremer incontrolavelmente. A dor era física, esmagadora.
Lembrei-me de como o conheci. Ele salvou-me de um jornalista agressivo numa festa. Pareceu um cavaleiro de armadura brilhante. Tudo uma encenação. Cada beijo, cada promessa, uma mentira calculada.
O meu telemóvel vibrou na minha mão. Era o Tiago. Atendi, a voz a sair num soluço.
"Sofia? O que se passa? Onde estás?"
"Tiago", sussurrei, "eu quero ir para casa. Para o Porto."
Houve uma pausa. "E o pretendente que eu te arranjei? Estás pronta para o conhecer?"
Ele já me tinha falado disto antes, uma forma de me proteger de Diogo, que ele nunca confiou. Na altura, ri-me. Agora, era a minha única salvação.
"Sim", disse eu, a voz firme pela primeira vez naquela noite. "Estou."





