Quando o Amor Vira Armadilha

"Tens a certeza, Sofia?", a voz do Tiago soava preocupada do outro lado da linha.

"Tenho. Absoluta."

Menti. Disse-lhe que eu e o Diogo tínhamos discutido, que percebemos que não tínhamos futuro. Não lhe podia contar a verdade. Não podia dizer-lhe que a mulher que ele tentava proteger tinha sido a maior idiota do mundo. A humilhação era minha para carregar.

"Eu vou tratar de tudo. Apanha o primeiro voo amanhã de manhã. Estarei à tua espera no aeroporto."

Desliguei e respirei fundo. O primeiro passo estava dado. Agora, a fuga.

Voltei para o apartamento de táxi, o coração a martelar no peito a cada esquina, com medo de que ele chegasse primeiro. Entrei e tranquei a porta.

Peguei num bloco de notas e comecei a escrever uma lista.

1. Apagar redes sociais.

2. Cancelar atuações em Lisboa.

3. Fazer as malas. Apenas o essencial.

4. Apagar as gravações do telemóvel do Diogo.

O último ponto era o mais difícil. O mais perigoso.

A porta destrancou-se. Era ele. Gelei.

Diogo entrou, um sorriso nos lábios. Ele não me tinha visto na festa.

"Meu amor, voltei mais cedo. Não aguentava as saudades."

Ele veio abraçar-me, mas eu recuei.

"O que se passa?", perguntou ele, a sua expressão a mudar de carinhosa para confusa.

"Nada. Estou cansada", menti.

Ele olhou para mim, os seus olhos a estudarem-me. A ironia era esmagadora. Ele, o mestre da manipulação, não via a verdade na minha cara. Ele falava da nossa "surpresa" de aniversário, uma festa luxuosa que ele estava a planear para mim. A mesma festa onde ele planeava destruir-me.

Mais tarde, enquanto ele tomava banho, a oportunidade surgiu. O telemóvel dele estava na mesa de cabeceira. Peguei nele, as mãos a tremer. Pedi a palavra-passe. Falhei. Tentei a data do nosso primeiro encontro. Falhei. Tentei o nome da mãe dele. Falhei.

O som do chuveiro a desligar-se fez-me saltar. Pousei o telemóvel rapidamente, o coração na boca.

No dia seguinte, comecei a minha purga silenciosa. Fui ao armário e tirei todas as roupas e joias que ele me tinha dado. Coloquei tudo num grande saco do lixo.

Ele viu-me. "O que estás a fazer, Sofia?"

"Limpezas", respondi, a voz vazia.

A sua expressão tornou-se possessiva. Ele agarrou-me pelo braço. "Tu não vais a lado nenhum."

"Claro que não", disse eu, forçando um sorriso. "Só estou a arrumar."

À tarde, recebi uma chamada de uma casa de fados onde costumava atuar. Cancelei todas as minhas próximas datas.

"Estás a desistir do fado?", perguntou Diogo, que tinha ouvido a conversa.

"Estou cansada. Preciso de uma pausa."

Era mais um sacrifício. O fado era a minha vida, mas era uma vida ligada a Lisboa. Ligada a ele. Para fugir dele, eu tinha de fugir de tudo.

Ele parecia desconfiado, mas não disse mais nada. A sua arrogância não o deixava ver que o seu "prémio" estava a escapar-lhe por entre os dedos.

Naquela noite, enquanto fingia dormir, o meu telemóvel iluminou-se com uma mensagem. Um número desconhecido.

Abri.

"Sou a Catarina. A noiva do Diogo. Precisamos de ter uma conversa séria. Encontra-me amanhã na Pastelaria de Belém às três."

O meu estômago revirou-se. Outra camada de mentiras. Outra peça no seu jogo cruel.

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