Acordei engasgando, meus pulmões ardendo como se eu tivesse acabado de emergir das profundezas esmagadoras de um oceano congelado.
Minhas mãos voaram para a minha garganta, arranhando uma pele que deveria estar fria e azul.
A luz do sol entrava pela janela.
Era forte. Violentamente forte.
Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético se debatendo contra as grades de uma gaiola.
Olhei ao redor do quarto, meu peito subindo e descendo.
O frasco de pílulas tinha sumido.
O pedaço de camisa ensanguentado tinha sumido.
Saí da cama às pressas, minhas pernas se enrolando nos lençóis úmidos de suor, e tropecei para o corredor.
"Mamãe?"
A voz me atingiu como um golpe físico.
Eu congelei, minha mão agarrando o batente da porta com tanta força que a madeira gemeu sob meu toque.
Virei a cabeça lentamente, apavorada de que fosse uma alucinação, uma crueldade final de um cérebro moribundo.
Dani estava parado na porta do seu quarto, esfregando o sono dos olhos.
Ele usava seu pijama azul de dinossauro.
Inteiro.
Vivo.
Intacto.
"Dani", eu disse com a voz embargada, caindo de joelhos.
Ele correu para mim, seus bracinhos envolvendo meu pescoço. "Você estava gritando, mamãe. Teve um pesadelo?"
Enterrei meu rosto em seu cabelo macio, inalando o cheiro de xampu de bebê e inocência. Era o cheiro da vida.
Não foi um pesadelo.
Foi uma memória.
Afastei-me e olhei para ele, memorizando cada centímetro de seu rosto, certificando-me de que o calor de sua pele era real.
Peguei meu celular na mesa de cabeceira.
15 de maio.
O dia em que a carta chegou.
O dia em que Heitor trocou a vida do nosso filho pelo conforto da sua vagabunda.
Encarei a data, os números queimando em minhas retinas.
A dor que me esmagara segundos atrás se transformou.
Não apenas desapareceu; ela se cristalizou.
Cristalizou-se em algo afiado, frio e útil.
Eu não era mais o passarinho na gaiola.
Eu era a mulher que tinha provado o cano de uma arma e sobrevivido.
"A mamãe está bem, meu amor", eu disse, minha voz firme, desprovida do tremor que definira minha existência por anos. "Vá assistir seus desenhos. A mamãe precisa fazer uma ligação."
Dani beijou minha bochecha e correu escada abaixo, seus passos leves e despreocupados — um som que eu havia esquecido.
Levantei-me.
Caminhei até o espelho e olhei para a mulher que me encarava de volta.
Seu rosto era suave, sem as marcas da tragédia que ainda não acontecera, mas seus olhos eram antigos.
Eu sabia onde Heitor guardava os livros-caixa.
Eu sabia dos desvios.
Eu sabia da farsa da viúva.
Eu sabia de tudo porque, na minha vida anterior, ele ficou descuidado depois que eu morri.
Ele achava que eu era estúpida.
Ele achava que eu era cega.
Ele estava prestes a descobrir o quanto uma mulher morta consegue ver.
Peguei meu telefone e disquei um número que nenhuma esposa na Organização jamais deveria ligar diretamente.
A linha abriu após dois toques.
"Escritório do Conselheiro", respondeu uma voz rouca.
"Aqui é Sofia Souza", eu disse, o nome soando como cinzas e ferro na minha boca. "Esposa do Chefe Heitor Vargas."
Houve uma pausa, pesada de significado. "Sra. Vargas. É uma emergência?"
"Eu tenho provas de traição", eu disse, as palavras cortando o ar como um bisturi. "Apropriação indébita de fundos da Família. Violação do Código das Viúvas. E colocar em risco um herdeiro de sangue."
O silêncio se estendeu na linha.
Acusar um Chefe era uma sentença de morte se você estivesse errada.
Mas eu não estava errada.
"Estou ouvindo", disse a voz, o tom mudando de indiferente para perigoso.
"Estou indo para a Fortaleza", eu disse. "Diga ao Dr. Almeida para limpar a agenda dele. Estou levando as provas."
Desliguei.
Fui até o armário e peguei um vestido preto.
Era o vestido que eu tinha comprado para o funeral do Dani em outra vida.
Hoje, eu o usaria para enterrar meu marido.





