Prisioneira do Passado

O médico entregou-me o relatório do teste de paternidade, o seu olhar era de pena.

"Sinto muito, Sra. Sofia. O feto não tem relação biológica com o seu marido, o Sr. Miguel."

As suas palavras foram calmas, mas cada uma delas caiu sobre mim como uma pedra.

Eu olhei para o papel na minha mão. A conclusão estava lá, em preto e branco, uma verdade inegável.

O bebé que eu carregava há três meses não era do meu marido.

Eu sabia disso. Eu sempre soube.

O que eu não esperava era que Miguel, o homem com quem eu estava casada há cinco anos, fizesse um teste de paternidade sem me dizer nada.

O meu telemóvel vibrou na minha mala. Era uma mensagem dele.

"Sofia, estou no café em frente ao hospital. Traz o relatório. Precisamos de conversar."

Eu respirei fundo, o ar do hospital parecia pesado e difícil de engolir. Dobrei o relatório e coloquei-o na mala.

Atravessei a rua, o sol da tarde era forte. O café estava quase vazio. Miguel estava sentado perto da janela, de costas para mim.

Ele parecia calmo, a sua postura era a mesma de sempre, direita e controlada.

Sentei-me à sua frente. Ele não se virou para me olhar. Os seus olhos estavam fixos na rua movimentada lá fora.

"Mostra-me," ele disse, a sua voz era baixa e sem emoção.

Eu tirei o relatório da mala e empurrei-o pela mesa.

Ele pegou no papel, os seus dedos longos e finos a segurá-lo com firmeza. Ele leu-o em silêncio. A sua expressão não mudou.

"Então é verdade," ele disse finalmente, colocando o relatório na mesa.

"É," eu respondi. A minha garganta estava seca.

"De quem é?"

A pergunta pairou no ar entre nós, pesada e desconfortável.

Eu não respondi. Não conseguia.

Ele finalmente virou a cabeça e olhou para mim. Os seus olhos, que antes me olhavam com tanto amor, estavam agora frios, como se estivesse a olhar para uma estranha.

"Sofia, nós estamos casados há cinco anos. Eu pensei que nos conhecíamos."

"Nós conhecemo-nos, Miguel."

"Não. Aparentemente não," ele disse, um sorriso amargo a torcer-lhe os lábios. "Vamos divorciar-nos."

As palavras saíram da sua boca com uma facilidade assustadora.

"Divórcio? Assim, sem mais nem menos?"

"O que é que esperavas? Que eu criasse o filho de outro homem? Que eu fingisse que nada aconteceu?" A sua voz subiu um pouco, a sua calma a começar a rachar.

"Eu não te pedi para fazeres isso."

"Então o que é que queres, Sofia? Queres que eu te perdoe? Queres que eu compreenda?" Ele riu, um som oco e sem alegria. "Não há nada para compreender aqui. Tu traíste-me."

"As coisas não são assim tão simples."

"Então simplifica-as para mim!"

O silêncio voltou a instalar-se. Eu olhei para as minhas mãos na mesa. Elas tremiam ligeiramente.

"Eu não posso," eu sussurrei.

Miguel levantou-se. Ele pegou no seu casaco do encosto da cadeira.

"O meu advogado vai entrar em contacto contigo. Eu quero o divórcio o mais rápido possível. Não quero nada de ti, e não te vou dar nada. A casa fica para mim. Foi um presente dos meus pais."

Ele virou-se para sair.

"Miguel," eu chamei.

Ele parou, mas não se virou.

"O bebé... Eu vou abortar."

Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, sem olhar para trás, ele disse: "Isso é problema teu."

E ele saiu do café, deixando-me sozinha com o relatório de paternidade e o eco das suas palavras.

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