Prisioneira do Passado

Dois dias depois, eu estava na clínica, à espera. A sala de espera estava cheia de mulheres. Algumas pareciam ansiosas, outras indiferentes.

Eu sentia-me vazia.

O meu nome foi chamado. Segui a enfermeira por um corredor branco e estéril.

O procedimento foi rápido. Físico. Mecânico.

Quando acabou, eu senti um alívio estranho, seguido por uma onda de tristeza que me deixou sem fôlego.

A enfermeira deu-me um copo de água e algumas instruções.

"Descanse. Não faça esforços. Alguém vem buscá-la?"

"Não. Eu vou para casa sozinha," eu disse.

A minha casa. Que em breve já não seria minha.

Quando cheguei ao apartamento, a primeira coisa que vi foi a mala de Miguel no corredor. Estava aberta, metade das suas roupas já tinham desaparecido.

Ele estava no quarto, a dobrar camisas e a colocá-las metodicamente na mala. Ele não me ouviu entrar.

"Miguel?"

Ele sobressaltou-se e virou-se. Quando me viu, a sua expressão endureceu.

"O que é que estás a fazer aqui? Pensei que ias ficar em casa da tua mãe."

"Eu moro aqui. Pelo menos por agora," eu disse, a minha voz mais firme do que eu esperava.

"Não por muito tempo," ele retorquiu, voltando a arrumar as suas coisas.

"Já fizeste as malas tão depressa? Estás com pressa para te livrares de mim?"

Ele fechou a mala com um clique alto.

"Sim. Estou."

"Para onde vais?"

"Vou ficar num hotel até o divórcio estar finalizado. Depois, vou voltar para aqui. Para a minha casa."

Ele enfatizou a palavra "minha".

"Eu fiz o aborto," eu disse, a informação a sair de mim sem permissão.

Ele parou o que estava a fazer. Ele olhou para mim, e por um segundo, eu vi algo nos seus olhos. Não era pena, nem tristeza. Era... nada. Um vazio completo.

"Ok," foi tudo o que ele disse.

"Ok? É só isso que tens a dizer?"

"O que é que queres que eu diga, Sofia? Parabéns? Que pena? A decisão foi tua."

Ele pegou na mala e dirigiu-se para a porta. Eu bloqueei-lhe o caminho.

"Sai da frente, Sofia."

"Não. Nós vamos conversar. Tu não podes simplesmente ir embora assim."

"Eu posso e vou," ele disse, tentando contornar-me.

Eu agarrei-lhe no braço. "Miguel, por favor."

Ele puxou o braço com força, libertando-se do meu aperto. O seu movimento foi tão brusco que me desequilibrei e caí no chão.

A minha anca bateu com força no chão de madeira. Uma dor aguda percorreu o meu corpo.

Ele olhou para mim, caída no chão, com uma expressão de desprezo.

"Não sejas dramática. Eu nem te toquei com força."

Ele passou por cima de mim e saiu do apartamento. A porta bateu com um som final e decisivo.

Eu fiquei ali, no chão, a olhar para a porta fechada. A dor na minha anca era real, mas a dor no meu peito era muito pior.

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