O Vazio no Ventre: Quando o Amor Se Desfaz

Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas, a luz branca do teto do hospital feria a minha vista.

O meu corpo estava pesado, cada músculo doía.

Ao meu lado, o meu marido, Leo, segurava o telemóvel, a sua voz era baixa mas cheia de uma ansiedade que não era para mim.

"Como está o Tiago? Ele já acordou? O médico disse alguma coisa?"

Silêncio. Depois, a sua voz tornou-se ainda mais tensa.

"Não te preocupes, Sofia, eu estou a caminho. Fica com ele, eu chego já."

Sofia. A minha irmã mais nova. Tiago. O filho dela.

Eu tinha acabado de sofrer um acidente de carro. O carro capotou três vezes. E a primeira preocupação do meu marido era o seu sobrinho, que tinha apenas febre.

Tentei falar, mas a minha garganta estava seca, um som áspero saiu.

Leo finalmente notou que eu estava acordada, ele desligou a chamada apressadamente.

"Clara, acordaste. Como te sentes?"

Ele aproximou-se, mas a sua preocupação parecia forçada, os seus olhos continuavam a olhar para a porta, ansiosos por sair.

"Onde... onde está o nosso filho?" perguntei, a minha voz a falhar.

Eu estava grávida de cinco meses. O meu filho, o nosso pequeno Lucas.

O rosto de Leo contraiu-se, ele desviou o olhar.

"Clara, os médicos... eles fizeram o melhor que podiam."

O meu mundo desabou, o teto branco começou a girar.

"O bebé...?"

"Perdemos o bebé," disse ele, a sua voz sem emoção, como se estivesse a ler uma notícia. "O impacto foi demasiado forte."

Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, mas eu não conseguia fazer um som. O meu corpo estava paralisado pela dor, uma dor que não era física.

Leo colocou a mão no meu ombro, um toque leve, quase hesitante.

"Clara, eu preciso de ir. O Tiago está com febre alta, a Sofia está sozinha no hospital com ele. Ela precisa de mim."

Ele ia deixar-me. Ali, naquele momento.

"O teu sobrinho tem febre," a minha voz era um sussurro gelado. "Eu perdi o nosso filho."

A raiva finalmente deu-me forças, olhei diretamente para ele.

"E tu vais-me deixar aqui para ires ter com ela?"

A impaciência tomou conta do rosto de Leo, a sua máscara de preocupação caiu.

"Clara, não sejas irracional! A Sofia não sabe lidar com estas coisas, ela entra em pânico! O Tiago é só uma criança. Tu estás estável, os médicos estão a cuidar de ti."

"Estável?" repeti, a palavra soava como um insulto. "Eu acabei de perder o nosso filho, Leo. O nosso filho!"

"Eu sei que é difícil," disse ele, o seu tom a tornar-se duro. "Mas não podemos fazer nada agora! A vida continua. O Tiago está doente agora, ele precisa de mim!"

Ele não olhou para mim uma segunda vez.

Simplesmente virou-se e saiu do quarto.

Ouvi os seus passos a afastarem-se apressadamente pelo corredor.

Fiquei sozinha no quarto silencioso, com o cheiro de desinfetante e a dor oca no meu ventre.

O nosso filho tinha desaparecido. E o meu marido tinha ido consolar a sua cunhada por causa de uma febre.

Naquele momento, eu soube. O nosso casamento tinha acabado.

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