O Vazio no Ventre: Quando o Amor Se Desfaz

Dois dias depois, recebi alta.

Ninguém da família do Leo veio buscar-me.

Ele nem sequer ligou.

Foi a minha amiga, a Ana, que me levou para casa.

A casa estava silenciosa e vazia, parecia fria. O quarto de bebé que tínhamos começado a decorar estava com a porta fechada, uma visão que eu não conseguia suportar.

"Tens a certeza que queres ficar aqui sozinha?" perguntou a Ana, a sua voz cheia de preocupação.

"Tenho," respondi, forçando um sorriso. "Preciso de um tempo para pensar."

A Ana abraçou-me com força antes de sair.

Assim que a porta se fechou, sentei-me no sofá. O silêncio era ensurdecedor.

Peguei no meu telemóvel. Nenhuma chamada perdida do Leo. Nenhuma mensagem.

Abri as redes sociais. A primeira coisa que vi foi uma publicação da Sofia.

Uma foto dela e do Leo no quarto do hospital, sorrindo para a câmara. O pequeno Tiago estava a dormir pacificamente na cama.

A legenda dizia: "Obrigada, cunhado, por estares sempre aqui para nós. O melhor tio do mundo! O nosso herói!"

O meu herói.

O meu estômago revirou.

Ele era o meu marido. Eu estava num hospital, a recuperar de um acidente que me tirou o nosso filho. E ele estava a tirar selfies com a minha irmã.

Senti um impulso. Liguei-lhe.

Ele atendeu ao terceiro toque, a sua voz soava irritada.

"O que foi, Clara?"

"Vi a tua foto," disse eu, a minha voz surpreendentemente calma. "Pareces feliz."

Houve uma pausa.

"Clara, não comeces. O Tiago já está melhor, eu estava apenas a tentar animar a Sofia."

"Animar a Sofia."

"Sim. Ela estava muito assustada. És a irmã mais velha, devias entender."

"Eu entendo," disse eu. "Eu entendo que o nosso filho morreu e tu não te importas."

"Isso não é verdade!" ele elevou a voz. "Claro que me importo! Mas o que queres que eu faça? Chore o dia todo? Isso não o vai trazer de volta!"

A sua crueldade era como um soco no estômago.

"Eu quero o divórcio, Leo."

O silêncio do outro lado da linha foi longo.

"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto? Estás a ser egoísta, Clara. Estás a pensar apenas na tua dor."

"E tu?" contra-ataquei. "Em quem estás a pensar? Na tua dor? Ou em como podes ser o herói da minha irmã?"

"Tu não entendes nada," disse ele com desdém. "A Sofia precisa de apoio. A família é o mais importante."

"Eu era a tua família," sussurrei. "O nosso bebé era a tua família."

"Pára com o drama, Clara. Estás a exagerar. Falamos quando estiveres mais calma."

Ele desligou.

Simplesmente assim.

Olhei para o telemóvel na minha mão. Ele tinha razão numa coisa.

Eu precisava de me acalmar.

E precisava de um advogado.

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