O Último Grito do Meu Anjo

Quando abri os olhos, o teto branco do hospital foi a primeira coisa que vi.

A minha cabeça doía.

O meu corpo inteiro parecia ter sido atropelado por um camião.

A minha mãe, Clara, estava sentada ao meu lado, com os olhos vermelhos e inchados.

"Mãe, o que aconteceu? Onde está o Lucas?"

A minha voz saiu rouca.

A minha mãe começou a chorar.

"Eva... o Lucas... ele não sobreviveu."

O meu mundo desabou.

Lucas. O meu filho de cinco anos. O meu único filho.

Ele não sobreviveu.

O meu marido, Pedro, entrou a correr no quarto nesse momento.

Ele não olhou para mim, foi direto para a minha mãe.

"Clara, como está a Sofia? O médico disse alguma coisa? Ela está com dores?"

A sua voz estava cheia de uma ansiedade que eu nunca tinha ouvido antes.

Sofia. A minha meia-irmã.

Ela estava deitada na cama do outro lado do quarto, pálida, com uma perna engessada.

A minha mãe enxugou as lágrimas e respondeu: "O médico disse que a fratura dela é complicada, vai precisar de muito repouso. Ela continua a chorar por causa do cão."

"Pobre Sofia," disse Pedro, a sua voz suave. "Não te preocupes, Sofia, eu vou encontrar o melhor veterinário para o Bobi. Ele vai ficar bem."

Eu olhei para ele.

O meu marido.

O homem com quem partilhei a cama durante seis anos.

O pai do meu filho morto.

Ele nem sequer me dirigiu um olhar.

O meu filho estava morto, e ele estava preocupado com a perna da minha meia-irmã e o cão dela.

"Pedro," chamei-o. A minha voz era um sussurro.

Ele finalmente virou-se para mim, a sua expressão irritada.

"O que foi, Eva? Não vês que estou ocupado? A Sofia está ferida, precisa de mim."

"O nosso filho morreu."

Disse as palavras. Elas soaram estranhas, como se pertencessem a outra pessoa.

Ele franziu a testa, impaciente.

"Eu sei. É uma tragédia. Mas chorar não o vai trazer de volta. Precisamos de ser fortes, pela Sofia."

Pela Sofia.

O meu corpo começou a tremer incontrolavelmente.

O acidente. Lembrei-me.

Estávamos no carro. Eu, o Lucas e a Sofia.

Ela insistiu em levar o seu cão, Bobi, para o parque. No caminho, ela começou a discutir comigo porque eu não a deixava dar chocolate ao cão.

Ela puxou o volante.

Apenas por um segundo.

Mas foi o suficiente.

O carro desviou-se, bateu contra a barreira.

Lembro-me do grito do Lucas.

Depois, escuridão.

"Foi culpa dela," disse eu, a minha voz a ganhar força. "A Sofia causou o acidente."

O rosto de Pedro endureceu.

"Não te atrevas a culpá-la! Ela é apenas uma criança! Ela já está a sofrer o suficiente!"

Uma criança? A Sofia tinha dezenove anos.

"O teu filho está morto, Pedro!" gritei, as lágrimas finalmente a escorrerem pelo meu rosto. "O nosso Lucas!"

"E o que queres que eu faça?" ele gritou de volta. "A culpa é tua por a teres deixado irritada! Devias ter sido mais paciente!"

Ele virou-me as costas e voltou para o lado da cama da Sofia, pegando na mão dela.

"Não te preocupes, querida. Eu estou aqui. Não vou deixar que ninguém te magoe."

Naquele momento, algo dentro de mim quebrou.

O amor que eu sentia por ele, a esperança que eu tinha na nossa família, tudo se desfez em pó.

"Pedro," disse eu, com uma calma assustadora. "Vamos divorciar-nos."

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