O Último Grito do Meu Anjo

O silêncio no quarto era pesado.

A minha mãe olhou para mim, chocada.

Sofia, na sua cama, começou a soluçar alto.

"Irmã, por favor, não digas isso. A culpa foi minha, eu sei. Não destruas a tua família por minha causa."

A sua voz era fraca e cheia de lágrimas.

Pedro virou-se para mim, os seus olhos a arder de fúria.

"Tu só podes estar a brincar. O nosso filho acabou de morrer e tu estás a falar em divórcio? Onde está o teu coração?"

"O meu coração?" Ri, um som oco e sem alegria. "Onde estava o teu coração quando o nosso filho estava a morrer e tu só te preocupavas com ela?"

Apontei para a Sofia.

"Ela não é uma criança, Pedro. Ela tem dezenove anos. Ela puxou o volante de propósito."

"Isso é mentira!" gritou Sofia da sua cama. "Eu só me assustei! Tu estavas a gritar comigo!"

"Cala a boca, Eva!" rosnou Pedro. "Estás a traumatizá-la ainda mais! Devias ter vergonha!"

Ele aproximou-se da minha cama, a sua sombra a cobrir-me.

"Tu não vais a lado nenhum. Estás em choque. Não sabes o que estás a dizer. Vamos ultrapassar isto, como uma família."

"Nós não somos uma família," disse eu, olhando diretamente nos seus olhos. "Não mais."

A porta do quarto abriu-se e o meu padrasto, Tiago, o pai da Sofia, entrou.

Ele era um homem grande e imponente, e o seu rosto estava sombrio.

Ele ignorou-me completamente e foi direto para a sua filha.

"Minha querida, como te sentes? O pai está aqui."

A sua voz, normalmente dura, era surpreendentemente gentil.

Sofia chorou ainda mais alto nos seus braços.

"Pai, a irmã Eva quer divorciar-se do Pedro. É tudo por minha causa."

Tiago olhou para mim por cima do ombro da Sofia, o seu olhar frio como gelo.

"Divórcio? Que disparate é este?"

A minha mãe, Clara, finalmente falou.

"Tiago, por favor. A Eva acabou de perder o filho dela."

"E a minha filha quase morreu!" ele retorquiu. "E agora esta tua filha ingrata quer criar mais drama. Sempre soube que ela não prestava, tal como o pai dela."

As suas palavras atingiram-me.

O meu pai tinha-nos abandonado quando eu era pequena. Tiago nunca perdeu uma oportunidade de me lembrar disso.

Pedro colocou uma mão reconfortante no ombro de Tiago.

"Não se preocupe, Tiago. A Eva está apenas em choque. Ela não quer dizer isto a sério. Eu vou tratar dela."

Eles estavam a falar de mim como se eu não estivesse ali.

Como se a minha dor não importasse.

Como se a minha decisão não fosse minha.

Peguei no meu telemóvel na mesa de cabeceira. As minhas mãos tremiam, mas consegui encontrar o número.

"O que estás a fazer?" perguntou Pedro, desconfiado.

"A ligar ao meu advogado," respondi, sem desviar o olhar do ecrã.

O rosto de Pedro contorceu-se de raiva. Ele arrancou o telemóvel da minha mão.

"Chega disto!"

O telemóvel caiu no chão com um baque.

Olhei para o aparelho partido, depois para o rosto dele.

E pela primeira vez, não senti medo.

Apenas um vazio gelado.

"Podes partir o meu telemóvel," disse eu, a minha voz firme. "Mas não podes forçar-me a ficar contigo. Acabou, Pedro. Eu quero o divórcio."

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