O Troco da Genial

A última coisa que Sofia sentiu foi o vento gelado em seu rosto enquanto caía.

Abaixo dela, as luzes da cidade pareciam estrelas distantes se aproximando rápido demais.

Laura, sua ex-melhor amiga, estava no terraço, com a mão ainda estendida, o rosto distorcido por um sorriso triunfante.

Ao lado dela, Pedro, seu ex-namorado, observava com uma frieza que congelava a alma.

Ele não fez nada.

A traição deles não tinha sido suficiente, eles a humilharam, armaram para que ela perdesse a bolsa de estudos que mudaria sua vida, e a viram afundar. Anos depois, quando Sofia finalmente se reergueu, construindo uma carreira de sucesso do zero, o destino os colocou frente a frente novamente. Pedro era um empresário falido, e Laura, uma socialite decadente que vivia de aparências.

O desprezo no olhar de Pedro naquela noite foi a gota d'água para Laura. A inveja que a consumiu por anos explodiu em um empurrão.

O impacto com o chão nunca veio.

Sofia abriu os olhos com um solavanco, o coração martelando contra as costelas, o suor frio escorrendo por sua testa.

Ela estava em sua cama, no quarto de sua adolescência. A luz do sol entrava pela janela, iluminando os pôsteres de bandas antigas na parede e a pilha de livros didáticos em sua escrivaninha.

Ela pegou o celular, as mãos tremendo.

A data na tela a fez parar de respirar.

Era três meses antes do dia em que ela deveria fazer a prova final para a bolsa de intercâmbio, a prova que Pedro e Laura sabotaram.

Três meses antes do início de sua ruína na vida passada.

Ela renasceu.

Um riso seco e sem alegria escapou de seus lábios. Não era uma segunda chance para ser feliz, era uma segunda chance para se vingar.

Naquele mesmo dia, ao chegar na escola, um tumulto no pátio principal chamou sua atenção. No centro de uma multidão de alunos, Pedro segurava um buquê de rosas tão grande que mal conseguia ver por cima dele. Em frente a ele, Laura sorria, o rosto corado de uma falsa modéstia.

Um banner enorme estava pendurado entre duas árvores, com letras garrafais e bregas: "LAURA, MEU AMOR POR VOCÊ É TÃO GRANDE QUANTO MEU FUTURO BRILHANTE. TE AMO, PEDRO."

Sofia sentiu um gelo percorrer sua espinha. A cena era ridícula, mas o olhar que Laura lançou em sua direção por cima do ombro de Pedro não era.

Era um olhar de desafio, de conhecimento.

Um olhar que dizia: "Eu também voltei. E desta vez, vou te esmagar desde o início."

Pedro parecia desconfortável com toda a atenção, seu sorriso era um pouco forçado enquanto ele entregava as flores para Laura. Ele sempre foi ambicioso e egoísta, mas essa demonstração pública e exagerada não era seu estilo. Era o estilo de Laura, fútil e desesperada por validação.

Ele estava fazendo aquilo por ela. Na vida passada, o romance deles começou em segredo, alimentado pela emoção da traição. Agora, estava escancarado para todos verem, uma declaração de guerra direta a Sofia.

A multidão aplaudia e assobiava, alguns gravavam com seus celulares, imersos no que parecia uma cena de filme romântico. Mas Sofia via a podridão por baixo da superfície. Ela via a inveja de Laura e a ambição cega de Pedro.

Ela se virou, ignorando a cena patética. Cada segundo que ela perdia pensando neles era um segundo a menos para construir seu futuro.

Ela foi direto para a biblioteca, o silêncio do lugar um bálsamo para sua mente tumultuada. Sentou-se em uma mesa afastada e abriu um livro de cálculo. As equações e fórmulas que antes pareciam um desafio intransponível, agora fluíam em sua mente com uma clareza assustadora.

Sua mente de adulta, com anos de experiência e estudo, estava presa em seu corpo de dezessete anos. Isso não era apenas uma segunda chance, era uma vantagem esmagadora.

Um sorriso frio e determinado se formou em seus lábios.

Eles podiam ter o showzinho deles, a atenção e os aplausos.

Ela tinha o conhecimento do futuro e uma sede de vingança que a manteria acordada à noite, estudando, se preparando.

Enquanto estava concentrada, sentiu uma sombra sobre sua mesa.

"Olha só quem está aqui, a futura gênia fracassada."

A voz de Laura pingava sarcasmo. Ela estava parada ao lado da mesa, com Pedro logo atrás, de braços cruzados e um ar de superioridade.

Antes que Sofia pudesse responder, a mão de Laura, como que por acidente, esbarrou na pilha de livros e apostilas que Sofia havia organizado. Tudo voou para o chão em uma cascata de papel.

"Ops, desculpa. Foi sem querer."

Laura disse, com um sorriso que não chegava aos olhos.

O barulho atraiu a atenção de todos na biblioteca. Os olhares se voltaram para eles, alguns curiosos, outros com pena. A humilhação era pública, exatamente como Laura queria.

Sofia respirou fundo, sentindo a raiva queimar em seu peito. A Sofia de sua vida passada teria chorado, teria saído correndo.

Mas não esta Sofia.

Ela se agachou lentamente, sem pressa, e começou a juntar seus materiais um por um. Sua calma era uma afronta direta à provocação de Laura.

Quando se levantou, olhou diretamente nos olhos de Laura, um olhar tão frio e intenso que fez a outra recuar um passo.

"Não se preocupe, Laura."

A voz de Sofia era baixa, mas cortante, cada palavra pesada com um significado oculto.

"Eu pego o que é meu. Já você, tome cuidado para não se perder no meio de tanto lixo."

Ela deu uma última olhada para Pedro, cujo sorriso vacilou por um instante, e depois se virou e caminhou para fora da biblioteca, de cabeça erguida, deixando os dois para trás no meio do silêncio constrangedor que haviam criado.

A guerra tinha começado. E desta vez, Sofia estava pronta para lutar.

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