O Troco da Genial

No corredor, Laura não a deixou em paz. Ela acelerou o passo e parou na frente de Sofia, bloqueando seu caminho.

"Você se acha muito esperta, não é, Sofia?"

A voz dela era um sussurro venenoso.

"Só não se esqueça de como as coisas terminaram da última vez. Algumas pessoas simplesmente não nasceram para ter sucesso. Talvez seja melhor você relaxar e não se esforçar tanto. Sabe, para evitar... acidentes."

A menção a "acidentes" atingiu Sofia como um soco no estômago.

Ela se lembrou vividamente do dia da prova para a bolsa de estudos na vida passada. Laura havia insistido em preparar uma "bebida especial da sorte" para ela. Uma bebida que a deixou com uma cólica estomacal tão forte que ela mal conseguiu segurar a caneta, muito menos se concentrar nas questões.

Ela teve que abandonar a prova no meio.

Laura, que tinha notas muito inferiores, ficou com a vaga que sobrou. E Pedro, que a essa altura já a traía com Laura, a "consolou", dizendo que talvez não fosse para ser, que ela deveria focar em apoiá-lo em seus próprios sonhos.

Que tola ela tinha sido.

Ela confiou nos dois, as pessoas mais próximas a ela, e eles a destruíram metodicamente, sorrindo em seu rosto o tempo todo.

Sofia cravou as unhas na palma da mão, a dor física a ajudando a manter o controle.

"Você acha que o mesmo truque vai funcionar duas vezes, Laura?"

Sofia respondeu, a voz perigosamente calma.

"Acho que você superestima sua inteligência e subestima a minha memória."

O rosto de Laura se contraiu em uma carranca. Ela não esperava essa reação. Ela esperava medo, lágrimas, desespero. Não essa confiança fria e desafiadora.

Sofia sabia que Pedro, apesar de sua arrogância, era calculista. Ele não teria começado a atacá-la tão abertamente, tão cedo. Ele preferia a sabotagem sutil, a manipulação pelas costas. Essa abordagem barulhenta e estúpida era toda de Laura.

Laura, que pensava que, por ter renascido, era invencível. Que acreditava que repetir os mesmos passos lhe daria a mesma vitória.

Que tola.

O mundo não era mais o mesmo, porque Sofia não era mais a mesma.

Nos dias seguintes, ficou claro que Pedro e Laura haviam abandonado completamente qualquer pretensão de serem bons alunos.

Eles se tornaram o centro das atenções da escola, mas pelos motivos errados.

Pedro, que na vida passada pelo menos mantinha as aparências de um estudante dedicado, agora passava as aulas trocando bilhetes com Laura ou olhando para ela com uma expressão de adoração pateta.

Ele começou a faltar às aulas da tarde para levar Laura para passear no shopping, para jantares caros, para sessões de cinema. O dinheiro que ele usava vinha, Sofia sabia, de economias que seus pais faziam com muito sacrifício para sua faculdade.

Laura, por sua vez, vivia o papel da namorada troféu. A cada dia, ela aparecia com algo novo: um tênis de edição limitada, o último modelo de celular, uma bolsa de marca. Ela exibia esses presentes como medalhas de honra, sempre garantindo que Sofia visse.

A obsessão deles em reviver seu "romance épico" os estava consumindo.

Logo, o comportamento deles chamou a atenção da administração da escola.

Pedro e Laura foram chamados à diretoria por faltarem repetidamente às aulas de reforço e por seu desempenho acadêmico em queda livre. A resposta de Pedro foi arrogantemente dispensar as preocupações dos professores, prometendo que ele se recuperaria a tempo para os exames finais.

Em vez de voltarem aos trilhos, eles dobraram a aposta.

Começaram a andar com um grupo de alunos problemáticos, aqueles que passavam mais tempo fumando atrás do ginásio do que na sala de aula. A imagem de "casal modelo" que eles tentavam projetar começou a se rachar, revelando a imprudência por baixo.

Um dia, enquanto Sofia subia as escadas para a aula, deu de cara com o grupo. Pedro estava encostado na parede, um braço em volta de Laura, que ria de uma piada grosseira que um dos outros garotos contou.

O cheiro de cigarro pairava no ar.

Quando viram Sofia, o riso cessou.

"Olha só, a rata de biblioteca", zombou um dos garotos. "Ainda tentando ganhar aquela bolsa inútil?"

Pedro sorriu com desdém.

"Deixa ela, cara. Algumas pessoas precisam estudar para conseguir alguma coisa. Outras, como eu, já nasceram para o sucesso. É uma questão de talento, não de esforço."

Laura aninhou-se em Pedro, olhando para Sofia com uma mistura de pena e desprezo.

"É verdade, amor. Para que se matar de estudar quando se pode ter tudo? Sofia, você devia aprender a relaxar um pouco. A vida é curta demais."

A vida é curta demais. A ironia daquela frase, vinda da mulher que a empurrou para a morte, era tão absurda que Sofia quase riu.

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