O Resgate Fatal

O cheiro a queimado encheu os meus pulmões. O fumo era espesso, picava-me os olhos e eu tossia sem parar.

O alarme de incêndio soava, um barulho infernal e contínuo que se misturava com os gritos lá fora no corredor.

Eu estava presa na sala de arquivo do escritório, no décimo segundo andar. A maçaneta da porta estava a ferver.

Agarrei no meu telemóvel com os dedos a tremer e liguei ao meu marido, Marcos Almeida.

Ele era bombeiro. Ele era a minha única esperança.

A minha mão repousava sobre a minha barriga de oito meses. O nosso filho, o nosso pequeno Leo.

"Marcos, atende, por favor, atende", sussurrei para o ecrã.

A chamada foi atendida ao terceiro toque. O barulho de uma sirene soou do outro lado.

"Sofia? O que se passa? Estou a caminho de uma ocorrência."

A voz dele era tensa, profissional.

"Marcos, sou eu, estou presa! O prédio do meu escritório está a arder! Estou no décimo segundo andar, na sala de arquivo do lado oeste!"

O pânico na minha voz era inegável.

Houve uma pausa. Pude ouvi-lo a falar com alguém.

"Sim, é o edifício da GlobalCorp. Já estamos a caminho. A minha mulher está lá dentro."

Um alívio imenso percorreu-me. Ele estava a vir. Ele ia salvar-nos.

Mas então, ouvi outra voz ao fundo, uma voz feminina, a chorar histericamente.

"Marcos! Graças a Deus! É o Miau, ele subiu àquela árvore e não consegue descer! Estou tão assustada!"

Era a Clara. A sua amiga de infância. A sua vizinha. A mulher que parecia precisar sempre de ser salva por ele.

O coração começou a bater-me descontroladamente no peito, não pelo fogo, mas por um medo frio e familiar.

"Clara? Acalma-te, onde estás?" a voz do Marcos mudou, suavizou-se instantaneamente.

"Estou na nossa rua! Por favor, vem depressa!"

"Sofia", disse ele, de volta ao telemóvel, a sua voz novamente dura e apressada. "Ouve, tenho de fazer um desvio rápido. A Clara está em pânico. É aqui perto. Outra equipa já está a caminho do teu prédio. Apenas fica onde estás, mantém-te no chão e espera por eles. Não faças nada estúpido."

O mundo pareceu parar.

Um gato.

Ele ia salvar um gato numa árvore enquanto a sua mulher grávida estava num prédio em chamas.

"O quê? Marcos, não! Não podes estar a falar a sério! Eu preciso de ti aqui!"

"Sofia, não sejas dramática. Eu sou um bombeiro, sei o que estou a fazer. A equipa de resgate vai tratar de ti. A Clara está sozinha e desamparada."

Ele desligou.

Eu olhei para o telemóvel, incrédula. As lágrimas misturavam-se com o suor e a fuligem no meu rosto.

O som de algo pesado a desabar no andar de cima fez o chão tremer.

Eu estava sozinha. Ele tinha-me deixado.

Agarrei-me à minha barriga. "Aguenta, Leo. A mamã vai tirar-nos daqui."

Mas a esperança estava a desaparecer, a ser consumida pelas chamas, tal como o ar nos meus pulmões.

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados