O Resgate Fatal

Acordei com o som de um bip constante e um cheiro a antisséptico.

As paredes eram brancas. Eu estava num quarto de hospital.

A primeira coisa que fiz foi levar a mão à minha barriga.

Estava lisa. Vazia.

Um grito ficou preso na minha garganta, um som mudo e horrível. O meu bebé. O meu Leo. Ele tinha-se ido.

A porta do quarto abriu-se e Marcos entrou, seguido pelo seu pai, o Sr. Almeida, o chefe dos bombeiros da cidade.

Marcos tinha a cara cansada, mas não havia remorso nos seus olhos. Havia irritação.

"Finalmente acordaste", disse ele. "Assustaste-nos de morte."

Eu olhei para ele, a dor a transformar-se em fúria gelada.

"Onde está o meu filho, Marcos?"

Ele desviou o olhar. Foi o pai dele quem falou, com a sua voz autoritária e imponente.

"Sofia, foi uma tragédia. O stress, o fumo... os médicos fizeram tudo o que podiam, mas o bebé não sobreviveu. Lamentamos muito."

Lamentavam?

"Tu", disse eu, a minha voz um sussurro rouco. "Tu deixaste-me lá para morrer."

Marcos deu um passo em frente, a sua expressão endureceu.

"Não sejas ridícula. Eu disse-te que a ajuda estava a caminho. E estava! Eles tiraram-te de lá, não tiraram?"

"Depois de uma parte do teto ter desabado sobre mim. Depois de eu ter perdido o nosso filho."

"Isso não foi culpa minha! Eu tinha outra emergência! A Clara estava num estado lastimável, o gato dela podia ter caído e morrido!"

Eu ri. Um som amargo e quebrado que encheu o silêncio do quarto.

"Um gato. Tu trocaste o teu filho por um gato."

"Não fales assim!", rosnou o Sr. Almeida. "O meu filho é um herói! Ele salva vidas todos os dias! A Clara é como uma filha para mim. Ele fez o que qualquer pessoa decente faria por um amigo em apuros!"

"Um amigo em apuros com um gato numa árvore. Enquanto a mulher dele estava num inferno."

"Estás a ser histérica por causa dos teus 'hormónios'", disse Marcos, usando as palavras como uma arma. "Precisas de descansar e de te acalmar. Depois podemos falar sobre isto como adultos."

"Não há nada para falar", disse eu, a minha voz subitamente calma e clara. "Eu quero o divórcio."

O silêncio caiu sobre o quarto. O rosto de Marcos ficou vermelho de raiva.

"Divórcio? Estás louca? Depois de tudo o que passámos? Não podes estar a falar a sério!"

"Eu nunca falei tão a sério em toda a minha vida. Saiam. Os dois."

"Sofia, não sejas precipitada", começou o Sr. Almeida.

"FORA!" gritei, a minha voz finalmente a quebrar. "Saiam do meu quarto agora!"

Eles olharam para mim, chocados com a minha veemência. Depois, viraram-se e saíram, fechando a porta atrás de si.

Eu fiquei a olhar para a parede branca, para o vazio onde a minha barriga costumava estar.

O bip da máquina era o único som. O som do meu coração, ainda a bater.

Sozinho.

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