Eu estava no meio de uma crítica furiosa a um livro online quando tudo ficou preto.
"Que enredo mais clichê! A filha trocada, a família rica malvada, a mocinha que só sabe chorar. Quem ainda escreve uma porcaria dessas em pleno século XXI?"
Foi a última coisa que digitei.
De repente, uma voz mecânica e fria soou na minha cabeça, como um GPS com defeito.
[Sistema ativado. Host detectado com alto nível de insatisfação. Missão: Corrigir a "porcaria clichê". Mundo alvo: "A Herdeira Esquecida".]
"Que sistema o quê? Eu bebi demais?" murmurei, tentando me levantar, mas meu corpo não respondia.
[Personagem atribuído: Maria, a babá. Missão primária: Proteger a verdadeira herdeira, Ana Paula. Recompensa por conclusão: 500 milhões de reais.]
Antes que eu pudesse processar o valor absurdo, uma luz branca me cegou.
Quando abri os olhos, o cheiro de perfume caro e desinfetante encheu minhas narinas. Eu estava em uma sala gigantesca, luxuosa, e na minha frente, uma cena que parecia ter saído direto do livro que eu odiava.
Uma garota com um vestido de grife, que eu soube instintivamente ser Juliana, a filha falsa, apontava o dedo para outra garota, encolhida no canto.
Essa era Ana Paula. A verdadeira filha.
"Você é surda ou burra, Ana Paula? Eu pedi um suco de laranja, não essa água suja com limão! Você faz tudo para me irritar, não é?"
A voz de Juliana era estridente e cheia de desprezo.
Ana Paula, magra e pálida, com roupas visivelmente gastas que não combinavam com o luxo da casa, apenas abaixou a cabeça. Seu cabelo, comprido e sem brilho, caía sobre seu rosto, escondendo sua expressão.
"Desculpe, Juliana. Eu pensei que..."
"Você não pensa! Você não tem cérebro para isso! Papai e mamãe só te trouxeram de volta por pena. Você deveria ser grata por não estar mais naquele orfanato imundo!"
A voz do sistema voltou, pingando sarcasmo.
[Cena de bullying inicial. A protagonista deve intervir para proteger a personagem alvo. Ou não. Você pode só assistir. A escolha é sua, mas o desempenho afeta a avaliação final.]
Ignorei o sistema. Olhei para a mão trêmula de Ana Paula, segurando o copo com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos.
Senti uma raiva fria crescer dentro de mim. Dinheiro ou não, aquilo era simplesmente errado.
Juliana estava prestes a dar um tapa no rosto de Ana Paula.
Eu me movi.
Agarrei o pulso de Juliana com força. Ela era mais alta que eu, mas meu aperto era firme.
Ela se virou, chocada. "Quem é você? Me solta!"
Eu olhei diretamente nos olhos dela, depois para os pais falsos, o Sr. e a Sra. Silva, que assistiam à cena do sofá como se fosse um espetáculo de teatro, sem qualquer intenção de intervir.
Soltei o pulso de Juliana com um empurrão e caminhei até Ana Paula.
Ajoelhei-me na frente dela, peguei sua mão fria e a ajudei a se levantar.
"Ana Paula, certo?"
Ela me olhou com seus grandes olhos assustados, surpresa por alguém estar falando com ela com gentileza. Ela apenas assentiu.
Eu sorri para ela e depois me virei para a família Silva, que agora me encarava com indignação.
Minha voz saiu alta e clara, enchendo o silêncio tenso da sala.
"Fique longe dessa gente desprezível."
Apontei para Juliana e seus pais.
"Vamos ser cidadãs de bem e construir um Brasil forte!"
Um silêncio chocado tomou conta do lugar. Ana Paula me olhou, os olhos arregalados. A família Silva parecia que tinha visto um fantasma.
O sistema apitou na minha cabeça.
[Declaração patriótica inesperada. Analisando... Relevância para o enredo: baixa. Nível de impacto: alto. Bônus por criatividade concedido.]
E então, para garantir que eu estivesse totalmente comprometida, uma imagem apareceu na minha mente: uma conta bancária com meu nome e um saldo de R$ 500.000.000,00.
Ok, sistema. Você venceu. Por quinhentos milhões, eu não só construiria um Brasil forte, eu construiria um Brasil novo em folha para Ana Paula.





