O Preço da Infidelidade

A notícia da minha seleção para o concurso se espalhou como fogo. Em casa, a reação foi uma mistura de orgulho e preocupação. Minha mãe me abraçou com força, seus olhos cheios de lágrimas.

"Minha filha, ir para a capital... É um mundo tão grande, tão diferente. Tenho tanto medo por você."

Meu pai, sempre mais quieto, apenas segurou minha mão, mas a força do seu aperto dizia tudo. Ele estava orgulhoso, mas também aterrorizado com a ideia de eu ir para longe, para um lugar onde eles não poderiam me proteger. A preocupação deles era um cobertor quente, mas também um peso.

Eu respirei fundo e sorri para eles, um sorriso que eu esperava que parecesse mais confiante do que eu me sentia.

"Mãe, pai, vai ficar tudo bem. É a minha chance. Eu preciso fazer isso. Eu sei me cuidar."

Eu os tranquilizei, dizendo que a traição de João só tinha me tornado mais forte. Eu precisava mostrar a eles, e a mim mesma, que eu não era mais a menina ingênua que eles conheciam. Eu era uma mulher que lutaria pelos seus sonhos, não importava o quão assustador o caminho parecesse.

Sozinha no meu quarto naquela noite, olhei para o meu reflexo no espelho. Eu vi uma versão de mim mesma que estava ferida, mas não quebrada. Havia uma nova determinação nos meus olhos. A dor da traição ainda estava lá, mas agora ela era combustível. Eu iria para a capital, eu competiria e eu venceria. Eu faria isso por mim, pela minha família e para provar que João e Clara estavam errados. Aquele sonho não era mais sobre nós, era apenas sobre mim.

Dois dias depois, a campainha tocou. Meu estômago revirou quando vi quem era. João e Clara, parados na minha porta com sorrisos falsos e uma cesta de frutas, como se fossem vizinhos preocupados.

"Maria, viemos ver como você está," disse Clara, com uma voz doce e pegajosa que me deu vontade de vomitar. "Ficamos tão felizes por você!"

João estava quieto, olhando para o chão, incapaz de me encarar nos olhos. A presença deles na minha casa era uma violação, uma profanação do meu porto seguro.

A visita deles rapidamente se tornou um pesadelo. Clara não parava de falar sobre como João estava arrasado por não ter sido escolhido, como ele merecia tanto quanto eu. Ela o defendia com uma ferocidade que era quase cômica, se não fosse tão nojenta.

"O João trabalhou tanto, Maria. Ele é um chef de verdade, com técnica. Você precisa entender o lado dele."

Então, ela se virou para mim, seu tom mudando para um de acusação.

"Você nem parece feliz. Talvez você não queira tanto essa vaga. O João iria aproveitar muito mais."

Foi a vez de João falar, e suas palavras foram piores do que o silêncio.

"Clara tem razão, Maria. Você parece sobrecarregada. Talvez seja demais para você. Você sempre foi mais... caseira."

A raiva subiu pela minha garganta, quente e amarga. Ele estava ali, na minha frente, depois de me trair, sugerindo que eu desistisse do meu sonho para que ele pudesse tomá-lo. A audácia dele era inacreditável.

Eu olhei para João, o homem que eu amei por anos, e não senti nada além de um frio profundo e uma decepção avassaladora. Ele não era mais o menino com quem eu cresci, o parceiro dos meus sonhos. Ele era um estranho, um homem egoísta e fraco, facilmente manipulado pela inveja da minha prima. O último resquício de afeto que eu sentia por ele se desfez naquele momento. Ele não valia a minha dor.

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