O Preço da Ganância

A dor em meu corpo era uma coisa viva.

Ela pulsava em ondas, começando na base das minhas costas e se espalhando como fogo por cada músculo. O cheiro de antisséptico e de lençóis limpos enchia o ar, um cheiro que eu odiava, o cheiro de hospital. Abri os olhos devagar, a luz branca do teto me cegando por um instante. Minha garganta estava seca, e quando tentei me mover, uma pontada aguda no meu ventre me fez parar.

Eu estava fraca, oca.

Um zumbido constante preenchia meus ouvidos, abafando os sons distantes do hospital. Era o som do vazio.

"Ana, meu amor, você acordou."

A voz de Pedro soou ao meu lado, falsamente suave. Ele segurou minha mão. Sua pele estava quente, mas seu toque me deu um arrepio. Ele se inclinou, seu rosto a centímetros do meu, seus olhos cheios de uma preocupação que não parecia real.

"Graças a Deus. Fiquei tão preocupado. Os médicos disseram que você e o bebê ficariam bem."

Ele falou a palavra "bebê" e um alarme soou dentro de mim.

Minha mão livre foi instintivamente para a minha barriga.

Ela estava... menor. Vazia.

Onde antes havia o peso reconfortante do meu filho de oito meses, agora havia apenas um vazio dolorido. O pânico começou a subir pela minha garganta, frio e rápido.

"Pedro... o bebê", minha voz saiu como um sussurro rouco. "Onde está o nosso bebê?"

"Calma, meu amor, calma", ele disse, apertando minha mão com mais força. "Ele está bem. Ele nasceu. Um pouco prematuro, mas está bem. Ele está no berçário, recebendo cuidados."

Uma onda de alívio me atingiu, mas foi passageira. Algo estava errado. Eu sentia nos meus ossos. A forma como ele falava, o jeito que seus olhos não encontravam os meus por mais de um segundo.

Eu queria acreditar nele. Eu precisava acreditar nele. Mas a sensação de que algo terrível havia acontecido era mais forte do que qualquer palavra sua.

Fechei os olhos, fingindo ceder ao cansaço. Pedro continuou a falar, dizendo coisas sobre como eu fui forte, sobre como agora tínhamos um filho lindo. Suas palavras eram como ruído branco, sem sentido. Pouco depois, senti seus lábios na minha testa e ouvi seus passos se afastando. A porta do quarto se fechou suavemente.

Fiquei imóvel, escutando. O silêncio durou pouco. Ouvi vozes do lado de fora, no corredor. Baixas, conspiratórias. Uma das vozes era a de Pedro.

A outra... meu sangue gelou. Era Sofia. Minha irmã mais nova.

O que ela estava fazendo aqui?

Com um esforço que me custou cada grama de força, eu me arrastei para a beirada da cama. A dor era excruciante, mas a necessidade de saber era maior. Consegui me sentar e colocar os pés no chão frio. Apoiando-me na parede, fui mancando até a porta, meu corpo tremendo.

Pressionei meu ouvido contra a madeira fria.

"Você tem certeza que ninguém viu?", era a voz de Sofia, um sussurro agudo e ansioso.

"Certeza absoluta", respondeu Pedro. Sua voz não tinha nada da suavidade de antes. Era dura, fria como gelo. "O capanga fez o trabalho direito na escada. A queda parecia um acidente perfeito."

Escada? Acidente? Meu cérebro tentava processar as palavras. A queda... não foi um acidente. Eu me lembrei de uma sombra, um empurrão. Alguém me empurrou.

"E o bebê dela?", perguntou Sofia. "O verdadeiro?"

Meu coração parou. O verdadeiro? O que isso significava?

Houve uma pausa. O silêncio no corredor era pesado, cheio de maldade.

"Eu mesmo cuidei disso", disse Pedro, e o tom de sua voz me fez sentir um enjoo violento. "Um travesseiro. Foi rápido. Ninguém vai saber. O médico legista já assinou o atestado de óbito. Insuficiência respiratória. Acontece com prematuros."

Não.

Não, não, não.

As palavras dele eram como golpes físicos. Meu filho. Meu menino. Ele... ele sufocou meu filho. O ar escapou dos meus pulmões. Levei a mão à boca para abafar um grito. As lágrimas queimavam meus olhos, mas eu não conseguia fazer um som.

"Meu Deus, Pedro", a voz de Sofia tinha um tom de admiração doentia. "Você é inacreditável."

"Era o único jeito, Sofia. O filho dela não podia ser o herdeiro. Agora, o nosso filho será. O bebê que a enfermeira colocou nos braços dela é o nosso. Nosso menino. Ele terá tudo."

Nosso filho.

A traição era uma faca de dois gumes. Meu marido. Minha irmã. Juntos. Não era apenas um caso. Era um plano monstruoso, tecido com inveja e ganância. O bebê que Pedro disse ser nosso, que estava no berçário, era filho dele com a minha própria irmã. E o meu filho, o meu anjinho, estava morto. Assassinado pelo próprio pai.

Toda a minha vida, meu casamento, a imagem da minha família... tudo se desfez em um milhão de pedaços naquele corredor de hospital. A felicidade que eu pensava ter era uma mentira. O amor que eu sentia por Pedro, a confiança que eu tinha em Sofia... tudo era uma piada cruel.

Eu me arrastei de volta para a cama, o corpo pesado como chumbo, a alma em frangalhos. A dor física não era nada comparada à dor que rasgava meu peito. Eu estava em um inferno, e as pessoas que eu mais amava eram os demônios que me colocaram aqui.

Deitada naquela cama, olhando para o teto branco, uma decisão se formou em meio à dor e ao caos.

Eu precisava fugir.

Eu precisava sair dali antes que eles me destruíssem por completo.

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