A porta do quarto ainda estava fechada, mas as vozes deles continuavam a vazar pela fresta, venenosas e claras. Eu estava de volta na cama, imóvel, o corpo fingindo um sono profundo enquanto minha mente queimava.
"E sobre o outro assunto?", perguntou Pedro, a voz baixa e tensa. "O Dr. Almeida confirmou?"
"Sim", respondeu Sofia. "Ele disse que o medicamento está pronto. Assim que ela tomar, é questão de horas. Ela nunca mais vai poder ter filhos. Nenhuma chance de outro herdeiro aparecer no futuro."
Um novo tipo de horror, gelado e paralisante, tomou conta de mim. Não bastava matar meu filho. Não bastava roubar minha vida. Eles queriam tirar de mim a própria capacidade de ser mãe. Queriam me tornar um deserto, estéril e sem futuro.
"Vamos dizer que são vitaminas", continuou Pedro, planejando cada detalhe com uma frieza calculista. "Para ajudar na recuperação dela. Ela vai tomar sem questionar. Ela confia em mim."
Essa última frase me atingiu como um soco. "Ela confia em mim." Sim, eu confiava. Eu entreguei a ele meu coração, minha vida, meu futuro. E ele usou essa confiança para me destruir.
"Mas... Pedro, isso não é demais?", a voz de Sofia soou, mas não era por compaixão. Era medo. Medo de ser pega. "Matar o bebê já foi... arriscado. Deixá-la estéril... e se descobrirem?"
"Ninguém vai descobrir!", Pedro rosnou, a paciência se esgotando. "O Dr. Almeida está no nosso bolso. Ele vai forjar os exames, vai dizer que foi uma complicação da queda. Tudo está coberto."
Houve um momento de silêncio, e eu podia imaginá-los se olhando no corredor, cúmplices em sua maldade.
"Tudo isso para que o nosso filho tenha o que é dele por direito", disse Pedro, a voz agora carregada de uma convicção distorcida. "Eu não ia deixar o filho da Ana, uma mulher que só se importa com seus projetos de arquitetura, herdar o império que eu construí. Nosso filho, Sofia, o fruto do nosso amor, ele sim merece tudo."
O desprezo em sua voz era palpável. Meus projetos, meu talento, minha paixão pela arquitetura... para ele, eram apenas um defeito, uma distração. Ele nunca tinha me admirado. Ele me ressentia.
Então, o celular de Pedro tocou. O som era abafado, mas eu ouvi.
"Alô?", ele atendeu. "Sim, sou eu... Entendido. O pagamento será feito amanhã. O serviço foi... satisfatório. Ela caiu feio. Nenhuma testemunha, certo? Ótimo."
Ele desligou.
Era a confirmação final. A peça que faltava no quebra-cabeça do meu pesadelo. Ele não apenas planejou tudo, ele contratou alguém. Aquele empurrão na escada não foi um acidente, não foi um delírio meu. Foi um ato contratado. Um atentado. Meu marido pagou para que eu caísse, para que eu perdesse nosso filho. E quando o plano não funcionou como esperado, ele terminou o serviço com as próprias mãos.
Uma onda de náusea subiu pela minha garganta. Meu corpo começou a tremer incontrolavelmente, um tremor violento que vinha do fundo da minha alma. Era o choque. A realização completa e absoluta da monstruosidade que habitava ao meu lado.
O homem com quem eu me casei, o homem que jurou me amar e proteger, era um monstro. Minha irmã, meu próprio sangue, era sua cúmplice.
Eles não me amavam. Eles me odiavam. Odiavam o suficiente para matar meu filho e me mutilar por dentro.
As lágrimas que eu segurava finalmente vieram, silenciosas e quentes, escorrendo pelo meu rosto e molhando o travesseiro. Não eram lágrimas de tristeza. Eram lágrimas de raiva, de pura e absoluta desolação.
A mulher que entrou naquele hospital grávida e feliz estava morta. A pessoa que estava naquela cama agora era outra. Uma estranha. Uma sobrevivente que acabara de descobrir que estava em guerra com as duas pessoas que mais deveria amar no mundo.
A clareza que veio com essa dor foi terrível e libertadora.
Não havia mais amor. Não havia mais perdão. Só havia a verdade nua e crua da traição deles.
E a minha necessidade de sobreviver a ela.





