O monstro da Calabria

Alessandro

Meu nome é Alessandro Vitale. Tenho trinta e seis anos, e há exatamente vinte deles carrego nas costas o peso do sobrenome que comanda a Calábria com punho de ferro.

Sou o monstro que as mães usam pra assustar os filhos.

O nome sussurrado nos becos.

O demônio que aparece quando uma dívida não é paga.

Não acredito em amor. Nem em felicidade. A vida me ensinou que tudo o que importa pode ser comprado, controlado ou destruído.

E hoje, eu compro uma esposa. Uma dívida paga com sangue e aliança.

Bianca De Angelis.

A garota debochada. A língua venenosa com um corpo de pecado e um olhar que desafia até o inferno.

Ela acha que isso é um jogo. Que pode rir, provocar, pisar no rastro de medo que deixo por onde passo.

Mas hoje... hoje eu mostro pra ela - e pra todos - quem manda.

O salão está lotado. Convidados engravatados, aliados da máfia italiana, rostos que escondem segredos, traições e sangue. Todos se calam quando eu entro.

Eles sabem.

Eu sou o Monstro da Calábria.

E ninguém ousa me contrariar.

No altar, espero com as mãos cruzadas nas costas. Meu terno é preto como a noite sem lua. O olhar firme. Frio.

Ao meu lado, o pai dela treme como um porco prestes a ser abatido. E com razão. Se não fosse útil por agora, já estaria enterrado.

A porta da igreja se abre.

E lá vem ela.

Bianca.

Usando um vestido branco... curto. Decotado. Justo.

Uma afronta costurada em cetim.

As pernas nuas, o peito quase saltando pra fora, o sorriso cínico pintado nos lábios vermelhos.

Ela cruza o corredor como se fosse dona do lugar.

Alguns convidados - idiotas - ousam desviar os olhos para as curvas dela.

E é aí que tudo para.

Dou dois passos à frente e levanto a mão.

- Baixem os olhos. Agora. - minha voz ecoa como um trovão no salão.

Ninguém se move.

- Se eu pegar alguém olhando pra minha esposa com esse vestido de puta... eu mato aqui mesmo. De cueca e calcinha. Sem cerimônia.

O silêncio é absoluto.

Todos abaixam a cabeça. Alguns tremem. Um engole em seco.

E ela ri.

A desgraçada ri.

- Calma, marido. Tá com ciúme ou medo de perder o encanto?

Meu sangue ferve.

Mas não respondo.

Não ainda.

Ela sobe os últimos degraus do altar e para na minha frente, com aquele olhar atrevido e o corpo desafiando cada maldito código de conduta que já impus em qualquer cerimônia.

Pego o microfone do padre com calma. Seguro com força. E encaro a multidão.

- Eu avisei. E cumpro o que prometo.

Agarro o vestido pela frente e rasgo o tecido de cima a baixo, arrancando o decote, a parte justa, o capricho que ela escolheu pra se exibir.

Fica de calcinha e sutiã rendado, branca como deveria ser a alma dela, se tivesse uma.

Um grito baixo ecoa na igreja.

Mas ninguém ousa se mexer.

O pai dela tenta se mover. Encosto a mão no coldre.

Ele recua. Pálido.

Bianca me encara, com um sorriso quase desafiador... mas os olhos? Os olhos vacilam.

- Você é doente.

- E agora, você é a esposa do doente.

Entrego o microfone de volta ao padre e faço sinal pra ele continuar.

A cerimônia segue. Em silêncio. Tensa.

Ela responde o "sim" com o queixo erguido, mesmo exposta, mesmo humilhada.

Eu também digo sim. Não porque quero.

Mas porque exijo.

O anel desliza no dedo dela como uma sentença.

E quando o padre fala que pode beijar a noiva, eu me aproximo...

Seguro firme sua cintura, forçando-a pra perto, e murmuro:

- A partir de hoje, todo mundo vai te temer tanto quanto teme a mim.

E então beijo.

Não por amor.

Mas por domínio.

E ela não recua.

Não geme.

Não se entrega.

Ela sorri.

Um sorriso que diz:

"Você pode me rasgar, Alessandro. Mas eu vou ser o espinho na tua garganta até o fim."

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