O Grito Silencioso de Uma Mãe

O meu filho, Lucas, desapareceu no supermercado.

Quando dei por mim, ele já não estava no corredor dos brinquedos.

O pânico subiu-me pela garganta, seco e áspero.

Corri pelos corredores, o meu coração a bater descontroladamente contra as minhas costelas.

"Lucas! Lucas!"

O meu grito era agudo, desesperado. As pessoas olhavam para mim, algumas com pena, outras com irritação.

Agarrei o meu telemóvel, as minhas mãos a tremer tanto que quase o deixei cair.

Liguei ao meu marido, o André.

A chamada foi para o correio de voz.

"André, o Lucas desapareceu. No supermercado Pingo Doce. Por favor, vem para cá. Por favor."

Tentei ligar novamente. E outra vez. E outra vez.

Sempre o mesmo silêncio, seguido pela voz gravada e impessoal.

Fui ter com o segurança, a minha voz a falhar enquanto explicava a situação. Ele foi simpático, mas lento. Fez perguntas, preencheu um formulário. Cada segundo era uma tortura.

Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o meu telemóvel vibrou.

Era o André.

"O que foi, Sofia? Estou numa reunião importante."

A sua voz era fria, distante.

"André, o Lucas! Ele desapareceu! Estou no Pingo Doce, não o encontro em lado nenhum!"

Houve uma pausa. Não de choque, mas de aborrecimento.

"Sofia, tens a certeza? Ele provavelmente está só escondido atrás de uma prateleira. Já o procuraste bem?"

"Claro que procurei! Ele não está aqui! A segurança já foi alertada, estou em pânico!"

Ouvi uma voz de mulher ao fundo, suave e familiar. A voz da minha cunhada, a Isabel.

"André, querido, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa com o teu projeto?"

A voz dela era melosa, cheia de uma falsa preocupação que me revirou o estômago.

"Não é nada, Isa. É só a Sofia a fazer um drama outra vez."

Ele disse isto para ela, mas alto o suficiente para eu ouvir.

"Um drama? O nosso filho desapareceu e tu chamas a isso um drama?"

A minha voz subiu uma oitava, cheia de incredulidade e dor.

"Olha, eu não posso sair agora. A Isabel está a ter um ataque de pânico por causa da apresentação de amanhã. Ela precisa de mim. Tu és a mãe, resolve isso. Liga-me quando o encontrares."

E ele desligou.

Assim.

Sem mais uma palavra.

Fiquei a olhar para o telemóvel, o ecrã escuro a refletir o meu rosto pálido e chocado.

Ele escolheu acalmar a irmã de um ataque de pânico imaginário em vez de procurar o nosso filho desaparecido.

O meu filho. O filho dele.

A realidade da sua escolha atingiu-me com a força de uma parede de betão.

Naquele momento, no meio do barulho indiferente do supermercado, eu soube.

O nosso casamento tinha acabado.

Não havia mais nada para salvar.

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