O Grito Silencioso de Uma Mãe

O segurança, um homem de meia-idade chamado Rui, encontrou o Lucas vinte minutos depois.

Ele estava no armazém, escondido atrás de uma pilha de caixas de papelão, a chorar baixinho.

Quando o vi, o alívio foi tão avassalador que as minhas pernas cederam.

Abracei-o com força, inalando o cheiro do seu cabelo, sentindo o seu corpo pequeno e trémulo contra o meu.

"Assustaste-me tanto, meu amor. Tanto."

Ele soluçou no meu ombro.

"Eu vi um cãozinho, mamã. Fui atrás dele."

Levei-o para casa, o meu braço firmemente à volta dele, como se tivesse medo que ele pudesse desaparecer outra vez se eu o largasse.

O André não ligou. Não mandou mensagem.

Quando chegámos a casa, a ausência dele era um grito silencioso.

Preparei um leite com chocolate para o Lucas e sentei-me com ele no sofá, a ver desenhos animados.

O meu telemóvel continuava mudo.

A minha decisão, tomada no meio do caos do supermercado, solidificou-se no silêncio do nosso apartamento.

Não era uma decisão tomada por raiva. Era uma conclusão. Uma verdade que eu já não podia ignorar.

Quando o André finalmente chegou a casa, já passava das dez da noite.

Ele entrou, deixou a pasta no chão e afrouxou a gravata.

"Então, encontraste-o? Eu sabia que ias encontrar."

Ele falou com a naturalidade de quem pergunta se o lixo foi levado para fora.

Não me levantei. Não olhei para ele.

"Sim, encontrei-o."

Ele foi até à cozinha, abriu o frigorífico.

"Vês? Drama desnecessário. A Isabel já está muito melhor, a propósito. Consegui acalmá-la."

Ele voltou para a sala com uma garrafa de água, finalmente olhando para mim.

"O que se passa contigo? Ainda estás zangada?"

Levantei-me lentamente.

"André, quero o divórcio."

Ele parou, a garrafa a meio caminho dos lábios. Primeiro, uma expressão de surpresa, depois, um sorriso de desdém.

"Divórcio? Estás a brincar, certo? Por causa disto? Sofia, não sejas ridícula."

"Não estou a ser ridícula. Estou a ser realista."

A minha voz estava calma, desprovida de emoção. Eu estava para além da raiva.

"O nosso filho desapareceu hoje. Eu liguei-te, aterrorizada, e tu escolheste ficar com a tua irmã porque ela estava 'nervosa'. Não era um assunto de vida ou de morte, André. O nosso filho podia estar. Mas tu não quiseste saber."

Ele franziu a testa, a sua irritação a crescer.

"Não fales assim da Isabel! Ela é sensível! E eu sabia que o Lucas estava bem! Tu exageras sempre!"

"Exagero? Ele estava no armazém, sozinho e a chorar. Qualquer coisa podia ter acontecido."

"Mas não aconteceu! Estás a fazer uma tempestade num copo de água para justificar o divórcio. O que é que tu queres, na verdade? Mais atenção? Dinheiro?"

A sua acusação pairou no ar, feia e cruel.

"Eu quero sair disto," disse eu, a minha voz firme. "Quero criar o meu filho num ambiente onde ele seja a prioridade. E claramente, aqui, ele não é."

"Tu não te vais divorciar de mim," disse ele, a sua voz a baixar para um tom ameaçador. "Tu não tens nada. Esta casa é minha. O dinheiro é meu. Vais ficar sem nada, Sofia. Tu e o teu filho."

Ele pensava que me estava a assustar.

Mas tudo o que eu sentia era uma estranha sensação de liberdade.

"Vamos ver," respondi simplesmente.

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