O Gato, a Amante e o Meu Bebé Perdido

Quando abri os olhos, a primeira coisa que vi foi o teto branco e estéril de um hospital. O cheiro de lixívia e desinfetante invadiu as minhas narinas, forte e enjoativo.

A minha cabeça doía. O meu corpo parecia pesado, como se estivesse colado à cama.

A minha mãe estava sentada numa cadeira ao meu lado. Os seus olhos estavam inchados e vermelhos, o seu rosto pálido.

"Mãe?", chamei, a minha voz era um sussurro rouco.

Ela sobressaltou-se e agarrou a minha mão. A sua pele estava fria.

"Clara, querida. Estás acordada."

Tentei sentar-me, mas uma dor aguda na minha barriga fez-me gemer. Olhei para baixo. A minha barriga, que antes estava redonda e cheia de vida com oito meses de gravidez, estava agora... vazia. Plana.

O pânico começou a subir pela minha garganta.

"O bebé... Onde está o meu bebé, mãe?"

As lágrimas que a minha mãe estava a segurar finalmente caíram, escorrendo pelo seu rosto cansado. Ela não precisava de dizer nada. O seu silêncio gritava a verdade.

"Não...", sussurrei. "Não, não, não."

A porta do quarto abriu-se. Era o Miguel, o meu marido. Ele não estava sozinho. A Sofia, a sua melhor amiga de infância, estava com ele, agarrada ao seu braço.

O cabelo do Miguel estava uma desordem, a sua roupa cheirava a fumo. Mas ele não parecia preocupado comigo. Os seus olhos estavam fixos na Sofia, que chorava histericamente.

"Calma, Fifi, já passou. Ele está bem. O Miau está seguro", dizia ele, com uma voz suave que eu raramente ouvia dirigida a mim.

Nos braços da Sofia, aninhado numa manta, estava um gato persa branco. O Miau.

Eles aproximaram-se da cama. O Miguel finalmente olhou para mim, a sua expressão era uma mistura de alívio e... irritação?

"Clara, acordaste. Assustaste-nos a todos."

A minha mãe levantou-se, o seu corpo tenso de raiva.

"Assustou-vos? Miguel, ela quase morreu! O vosso filho..."

A voz da minha mãe falhou.

O Miguel desviou o olhar, desconfortável.

"Eu sei. É terrível. Mas o incêndio foi um caos, ninguém sabia o que fazer."

A Sofia soluçou mais alto.

"Oh, Clara, eu sinto tanto. Se eu soubesse que estavas em perigo... O Miau ficou preso no meu apartamento, eu entrei em pânico."

Olhei para o gato. Depois olhei para a minha barriga vazia. Uma pergunta formou-se na minha mente, fria e afiada.

"Onde estavas, Miguel? Eu liguei-te. Gritei por ti. Eu não conseguia encontrar a minha bomba de asma."

Ele franziu o sobrolho.

"Eu estava a ajudar os bombeiros. A Sofia disse que o Miau estava preso no quinto andar. Eu subi para o ir buscar. Pensei que já tinhas saído."

O meu apartamento era no terceiro andar. O dela, no quinto. Ele subiu. Ele subiu, passando pela nossa porta, para salvar o gato dela.

O médico entrou nesse momento, segurando uma prancheta. O seu olhar era compassivo.

"Sra. Clara, lamento imenso a sua perda. O ataque de asma foi severo, a falta de oxigénio... não havia nada que pudéssemos fazer para salvar o bebé."

Cada palavra era um golpe. Falta de oxigénio. Porque eu não conseguia respirar. Porque a minha bomba de asma estava na mesa de cabeceira, a poucos metros de onde o meu marido passou para ir salvar um gato.

Virei o meu rosto para a parede. As lágrimas silenciosas que eu não sabia que estava a segurar começaram a escorrer pelo meu rosto, molhando a almofada do hospital.

Eu não queria mais vê-los. Não queria mais ouvir as suas vozes.

Eu queria o divórcio.

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