O Gato, a Amante e o Meu Bebé Perdido

"Saiam", disse eu, a minha voz surpreendentemente firme.

O Miguel olhou para mim, confuso. "O quê?"

"Eu disse para saírem. Tu e ela. Saiam do meu quarto."

A Sofia recuou, parecendo ofendida. "Clara, eu só queria ver se estavas bem..."

"Estou ótima", interrompi, o sarcasmo a pingar de cada palavra. "O meu filho está morto, mas o teu gato está seguro. Que alívio."

O rosto do Miguel endureceu.

"Clara, não sejas assim. Foi um acidente. Uma tragédia. Ninguém teve culpa."

"Ninguém teve culpa?", repeti, virando-me para o encarar. "Eu liguei para ti, Miguel. O alarme de incêndio disparou, a fumaça estava por todo o lado. Eu disse que não conseguia respirar, que precisava da minha bomba. E tu... tu foste salvar um gato."

"O que querias que eu fizesse?", ele explodiu, a sua voz a subir. "Deixasse o Miau morrer queimado? Eu pensei que ias descer as escadas como toda a gente!"

"Eu sou asmática!", gritei, a minha garganta a arder. "Eu estava grávida de oito meses! Tu sabias disso! Mas escolheste o gato dela em vez de mim. Em vez do teu próprio filho."

"Isso não é justo!", ele retorquiu. "Eu não fiz uma escolha! Foi o caos! Eu salvei uma vida!"

"A vida de um animal", disse a minha mãe, a sua voz gelada. "Enquanto a tua mulher e o teu filho não nascido sufocavam."

O Miguel olhou para a minha mãe com desprezo.

"Você não se meta nisto. Isto é entre mim e a minha mulher."

"Era sobre a minha filha e o meu neto. Agora é só sobre a minha filha", ela respondeu, sem vacilar.

A Sofia, vendo a situação a piorar, puxou o braço do Miguel.

"Miguel, talvez devêssemos ir. A Clara precisa de descansar."

Ele hesitou, olhando de mim para ela. A sua lealdade dividida era tão clara como o dia. E eu sabia de que lado ela pendia.

"Sim, talvez seja melhor", disse ele, finalmente. "Clara, falamos mais tarde, quando estiveres mais calma."

Mais calma. Como se a minha dor fosse um ataque de histeria que passaria com o tempo.

"Não haverá um mais tarde, Miguel", disse eu, a minha decisão final e irrevogável. "Eu quero o divórcio."

O silêncio no quarto era pesado. O Miguel olhou para mim, chocado. A Sofia arregalou os olhos.

"Divórcio? Estás a brincar?", disse o Miguel. "Não podes estar a falar a sério. Estamos a passar por uma perda horrível, devíamos apoiar-nos um no outro."

"Apoiar-te?", ri amargamente. "Tu deixaste-me para morrer. Que tipo de apoio é esse?"

"Eu não te deixei para morrer!", ele gritou, a sua cara vermelha de raiva. "Para de ser tão dramática!"

"Saiam", repeti, a minha voz a tremer de raiva e dor. "AGORA."

Ele olhou para mim por mais um longo momento, depois virou-se e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si. A Sofia seguiu-o apressadamente, lançando-me um último olhar que era uma mistura de pena e triunfo.

Quando eles se foram, o meu corpo desabou. Os soluços que eu estava a conter explodiram, sacudindo todo o meu corpo. A minha mãe abraçou-me, e eu chorei no seu ombro, chorando pelo meu bebé, pela minha vida destruída, e pelo homem que eu um dia amei.

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