O Fogo Que Me Libertou

O cheiro a queimado foi a primeira coisa que me acordou. Abri os olhos e vi fumo a entrar por debaixo da porta do quarto. O alarme de incêndio do prédio gritava, um som agudo e incessante.

Saltei da cama. O meu coração batia descontroladamente contra as minhas costelas. A minha mão foi instintivamente para a minha barriga de oito meses. O bebé. Tinha de nos tirar daqui.

Corri para a porta, mas o metal da maçaneta estava quente. Recuei, a tossir com o fumo espesso que enchia o ar. O pânico gelou-me. Peguei no meu telemóvel da mesa de cabeceira e disquei o número do meu marido, Tiago.

A chamada demorou uma eternidade a ser atendida. O som do alarme de incêndio tornava difícil ouvir.

"Clara? O que se passa? Mal consigo ouvir-te com esse barulho todo."

A voz dele soava distante, irritada.

"Tiago! Fogo! O prédio está a arder! Estou presa no quarto!" A minha voz era um grito rouco.

Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi outra voz de mulher, suave e chorosa. Era a Helena, a amiga de infância dele.

"Acalma-te," disse o Tiago, mas a sua atenção não estava em mim. "Helena, está tudo bem. Foi só um pequeno susto."

"Tiago, por favor, vem buscar-me! Não sei o que fazer!" gritei para o telemóvel, o fumo a queimar-me os pulmões.

"Clara, não posso ir agora," respondeu ele, a impaciência clara na sua voz. "A Helena queimou-se a fazer café, a mão dela está horrível. Tive de a levar às urgências. Liga para os bombeiros. Eles tratam disso."

A mão dela. Ela queimou a mão. E eu estava num prédio em chamas.

"Queimou-se? Tiago, eu vou morrer! O nosso filho vai morrer!"

"Não sejas dramática," retorquiu ele. "Os bombeiros existem para alguma coisa. Tenho de desligar. A Helena precisa de mim."

A chamada terminou.

Fiquei a olhar para o ecrã do telemóvel, incrédula. O mundo abrandou. O som do alarme, o crepitar das chamas algures perto, o meu próprio coração a martelar. Tudo pareceu desvanecer-se.

Ele desligou. Ele escolheu-a a ela por causa de uma queimadura na mão.

O fumo ficou mais denso. Caí de joelhos, a tossir violentamente. Arrastei-me até à janela, a lutar por cada lufada de ar. Com as minhas últimas forças, bati no vidro.

Foi a última coisa de que me lembro antes de tudo ficar preto.

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