O Dia em Que Ele Escolheu Outra

No dia em que o meu filho nasceu, o meu marido, Pedro, estava a doar sangue à sua ex-namorada, Sofia.

Eu estava sozinha na sala de parto, a minha visão turva pelo suor e pelas lágrimas.

A enfermeira ao meu lado tentava encorajar-me, a sua voz parecia vir de muito longe.

"Força, respira fundo! Já conseguimos ver a cabeça!"

Eu agarrei os lençóis da cama com toda a força que me restava, o meu corpo parecia que se ia partir ao meio.

Onde estava o Pedro?

Eu tinha-lhe ligado dezenas de vezes antes de entrar na sala de parto.

Ele atendeu apenas uma vez, a sua voz soava apressada e irritada.

"O que foi, Ana? Estou ocupado, não posso falar agora."

"Pedro, a bolsa rompeu, estou no hospital, o nosso filho vai nascer."

Houve um silêncio do outro lado, depois um suspiro pesado.

"Ana, a Sofia sofreu um acidente de carro, perdeu muito sangue. Ela tem um tipo de sangue raro, RH nulo, igual ao meu. Estou no hospital a doar sangue para ela, é uma emergência, a vida dela está em risco."

A vida dela está em risco.

E a minha? E a do nosso filho?

"Mas Pedro, é o nosso filho..."

"Os médicos estão aí contigo, não estás sozinha. A Sofia não tem ninguém. Sê compreensiva, por favor. Ligo-te mais tarde."

Ele desligou.

Compreensiva.

Ele pediu-me para ser compreensiva enquanto eu dava à luz o nosso filho sozinha, porque a ex-namorada dele precisava dele.

Um grito rasgou a minha garganta, misturando-se com a dor do parto.

Finalmente, o choro de um bebé encheu a sala.

O meu filho.

A enfermeira colocou-o nos meus braços. Ele era tão pequeno, tão enrugado, mas perfeito.

As minhas lágrimas caíam sobre o seu rostinho. Eu consegui. Nós conseguimos, meu filho.

Sozinhos.

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