O Dia em Que Ele Escolheu Outra

Levei o meu filho, que chamei de Leo, para casa dois dias depois.

A minha mãe, Clara, veio ajudar-me. Ela olhava para o berço com um misto de alegria e preocupação.

"Onde está o Pedro, Ana? Ele ainda não apareceu?"

Eu abanei a cabeça, tentando forçar um sorriso que não chegou aos meus olhos.

"Ele teve uma emergência. A ex-namorada dele, Sofia, sofreu um acidente."

A minha mãe franziu a testa, a sua expressão endureceu.

"Aquela Sofia? A que ele namorou durante anos antes de te conhecer?"

"Sim, essa mesma."

"E ele deixou-te sozinha no parto por causa dela?"

A sua voz era baixa, mas carregada de indignação. Eu não respondi, o silêncio era a única resposta que eu tinha.

O meu telemóvel vibrou. Era o Pedro.

"Ana, como estás? E o bebé? Desculpa não ter ligado antes, a situação com a Sofia foi muito complicada."

A sua voz soava cansada, mas não havia remorso nela.

"Estamos bem. Ele chama-se Leo."

"Leo. É um bom nome. Olha, vou ficar aqui no hospital mais uns dias. A Sofia ainda precisa de mim, a família dela está a viajar, não há ninguém para cuidar dela."

Eu senti um frio a percorrer-me a espinha.

"E nós, Pedro? O teu filho acabou de nascer."

"A tua mãe está aí, não está? Vocês dão conta. A Sofia está muito frágil, tentou suicidar-se depois do acidente. Não a posso abandonar agora."

Tentou suicidar-se.

Claro. A cartada final.

"Pedro, eu quero o divórcio."

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar. Eram pesadas, definitivas.

Houve um longo silêncio. Depois, a sua voz tornou-se gélida.

"Divórcio? Estás a falar a sério? Acabaste de ter um filho e já queres destruir a nossa família? És egoísta, Ana. Só pensas em ti."

"Eu penso no meu filho. Ele merece um pai que o coloque em primeiro lugar."

"E eu não o coloco? Salvei uma vida! Que tipo de exemplo seria eu se deixasse alguém morrer? Pensa nisso. Estás a ser irracional por causa das hormonas. Falamos quando estiveres mais calma."

Ele desligou-me o telefone na cara.

Olhei para o meu reflexo na janela escura. Eu não me reconhecia.

Quem era aquela mulher com olheiras fundas e uma dor silenciosa nos olhos?

Ele tinha razão numa coisa. Eu não estava a pensar só em mim.

Estava a pensar no Leo. E por ele, eu tinha de ser forte.

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