O Cirurgião e a Mentira: Sangue nas Mãos do Poder

Quando o carro fúnebre parou, a chuva fina começou a cair, molhando o vidro dianteiro.

O funeral da minha mãe tinha acabado.

Eu estava sentada no banco do passageiro, olhando para a certidão de óbito dela, o papel frio e fino nas minhas mãos. A causa da morte: hemorragia interna maciça.

O meu marido, Pedro, estava ao volante, com uma expressão cansada.

Ele ligou o rádio. Uma voz de locutor, calma e profissional, falava sobre o colapso de uma ponte pedonal no centro da cidade há três dias, um acidente que matou cinco pessoas e feriu mais de vinte.

"Ainda bem que não estávamos lá," disse Pedro, quebrando o silêncio. "Foi uma sorte."

Eu não respondi. Sorte? A minha mãe estava entre os feridos graves daquele dia. E agora, ela estava morta.

Peguei no meu telemóvel e disquei o número do meu sogro, Tiago. Ele era o diretor do hospital onde a minha mãe foi tratada. Foi ele quem supervisionou a cirurgia dela.

A chamada demorou a ser atendida. Finalmente, a voz de Tiago soou, impaciente.

"Lia, o que foi? Acabei de sair de uma cirurgia longa. Estou exausto."

Do outro lado da linha, ouvi a voz suave da minha cunhada, Sofia.

"Pai, bebe um pouco de água. O Dr. Mendes disse que o teu ombro está a doer de novo. Tens de te cuidar."

Depois, a voz de Sofia dirigiu-se a mim, com uma falsa simpatia. "Lia, lamento pela tua mãe. Mas o meu pai fez o seu melhor. Ele esteve no hospital durante três dias seguidos, sem sequer ir a casa. Ele está a trabalhar até à exaustão."

Trabalhar até à exaustão?

O meu sogro, o grande cirurgião, o diretor do hospital, não conseguiu salvar a minha mãe de uma hemorragia interna após uma cirurgia que ele mesmo realizou.

"Pedro," eu disse, com a voz rouca. "Vamos divorciar-nos."

O carro parou bruscamente no meio da estrada. Pedro virou-se para mim, os seus olhos arregalados de incredulidade.

"O quê? Ficaste louca? A tua mãe acabou de morrer e estás a falar em divórcio? Onde está a tua cabeça?"

"A minha cabeça está exatamente onde devia estar," respondi, a minha voz a tremer ligeiramente. "Eu não posso mais continuar casada contigo."

A raiva de Pedro explodiu.

"Por causa disto? Porque o meu pai não conseguiu salvar a tua mãe? A medicina não é omnipotente, Lia! Ele é um ser humano, não um deus! Ele tentou! Estás a culpá-lo por um acidente?"

Um acidente? A minha mãe entrou no hospital com uma perna partida e saiu num caixão.

"A Sofia tem razão," continuou ele, a voz a subir. "O meu pai está a sacrificar-se pelo hospital, por todos os pacientes. E tu, em vez de estares grata, queres o divórcio? Não tens um pingo de compaixão?"

Comp compaixão? Pela minha mãe, que gritou de dor durante horas enquanto as enfermeiras diziam que era "normal" após a cirurgia?

As lágrimas ameaçaram cair, mas eu engoli-as. Não ia chorar à frente dele.

"Para de ser tão egoísta, Lia! O meu pai precisa do nosso apoio agora. A Sofia está a cuidar dele. Devias pensar nas tuas ações!"

Com isso, ele arrancou com o carro, o som dos pneus a chiar no asfalto molhado.

Olhei pela janela para a chuva a cair. O mundo parecia cinzento e desfocado.

Se a minha mãe ainda estivesse viva, eu provavelmente aguentaria. Eu continuaria a tentar agradar o Pedro e a sua família, a fingir que éramos uma família feliz.

Mas agora, ela se foi. A única razão pela qual eu suportava tudo isto desapareceu com ela.

O divórcio era a única saída. Ficar seria continuar a sufocar lentamente.

Além disso, o "melhor" que o Tiago fez foi realmente o seu melhor? Ele estava no hospital, sim. Mas quando eu lhe liguei, desesperada, a dizer que a minha mãe estava a piorar, ele disse que estava ocupado numa reunião importante.

Uma reunião mais importante do que a vida de uma paciente?

Será que ele se importou quando eu implorei à enfermeira para chamar um médico? Será que ele se importou quando os sinais vitais da minha mãe começaram a cair drasticamente?

Provavelmente não. Caso contrário, ele não teria demorado três horas para aparecer. Ele não teria dito que era uma "complicação inesperada".

Eu era a sua nora. A minha mãe era a mãe da sua nora.

E nós éramos apenas um incómodo.

Enquanto eu estava perdida nos meus pensamentos, o meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido.

Abri-a.

"Eu sei o que aconteceu à sua mãe. Não foi um acidente. Encontre-me."

O meu coração parou por um segundo. Olhei para a mensagem, as letras a dançar à minha frente.

Nesse momento, o telemóvel do Pedro tocou. Era o Tiago. Pedro atendeu no altifalante.

A voz irritada de Tiago encheu o carro. "Pedro! O que se passa com a tua mulher? Ela está a enlouquecer? Divórcio? Que tipo de disparate é este numa altura como esta? Ela não tem respeito nenhum pela nossa família?"

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados